RESUMO
O Certina Labora, especificamente a iteração de 1947, representa um divisor de águas na história da horologia suíça, marcando o momento crucial em que a manufatura de Grenchen, Kurth Frères, transicionou de produzir relógios meramente funcionais para criar instrumentos de precisão focados na durabilidade extrema. Numa era de reconstrução pós-guerra, o Labora não era apenas um acessório, mas uma declaração de intenções cujo nome — derivado do latim 'trabalho' — definia o seu público-alvo: o homem ativo e profissional. Este modelo é reverenciado por historiadores como o 'pai espiritual' do conceito DS (Double Security) que viria a definir a marca em 1959. O coração deste relógio, o lendário movimento KF 320 (ou a sua variante de segundos centrais KF 330), é considerado um dos melhores calibres de corda manual da época, famoso pela sua arquitetura sobre-dimensionada e fiabilidade 'à prova de balas'. Ao integrar sistemas de proteção contra choques e caixas reforçadas muito antes de tais características se tornarem padrões da indústria, o Labora de 1947 solidificou a reputação da Certina como a escolha preeminente para resistência mecânica, estabelecendo os alicerces filosóficos que permitiriam à marca conquistar os picos dos Himalaias e as profundezas dos oceanos nas décadas seguintes.
HISTÓRIA
A história do Certina Labora de 1947 é indissociável da evolução da própria identidade da marca. Fundada em 1888 pelos irmãos Adolf e Alfred Kurth, a empresa operou durante décadas sob o nome 'Grana' (de Granacus, o nome latino de Grenchen). Foi apenas no final da década de 1930 e durante os anos 40 que a marca começou a adotar o nome 'Certina' (do latim 'certus', significando seguro, certo), visando uma pronúncia mais fácil e universal. O modelo Labora foi a ponta de lança deste rebranding, encarnando fisicamente a promessa de fiabilidade do novo nome.
No contexto de 1947, o mundo recuperava da Segunda Guerra Mundial e a procura por relógios civis robustos disparou. O Labora foi projetado para responder a esta necessidade. Ao contrário dos relógios de vestuário frágeis da década anterior, o Labora foi construído como um 'tanque' elegante. A chave para o seu sucesso residia inteiramente na engenharia interna: os calibres da série KF (Kurth Frères). O KF 320, em particular, é um estudo de caso em sobriedade de engenharia. Com pontes espessas, rodas de grandes dimensões e um layout lógico, foi desenhado para ser facilmente reparado e para suportar abusos que parariam outros mecanismos.
O ano de 1947 é crítico porque marca a maturação tecnológica do modelo. Foi neste período que a Certina começou a promover agressivamente as capacidades 'anti-choque' do Labora, utilizando publicidade que mostrava o relógio em ambientes de trabalho árduo, desde canteiros de obras a laboratórios científicos. Embora o famoso sistema DS (que suspende o movimento dentro da caixa usando um anel elástico) só fosse patenteado e lançado em 1959, o Labora foi o laboratório de testes para a filosofia de que um relógio deve sobreviver ao seu dono.
Historicamente, o Labora de 1947 também representa a democratização da qualidade suíça. Não era um relógio de luxo inatingível como um Patek Philippe, mas oferecia uma precisão cronométrica comparável e uma robustez superior a um preço que um profissional de classe média podia pagar. O modelo provou que a Certina podia produzir movimentos in-house de classe mundial, uma distinção que hoje eleva o valor destes modelos vintage entre colecionadores que reconhecem a era dourada da manufatura Kurth Frères.
CURIOSIDADES
1. O nome 'Labora' foi escolhido deliberadamente do latim para 'trabalha', enfatizando que este relógio não era uma joia, mas uma ferramenta de trabalho.
2. O movimento KF 320 é frequentemente apelidado por relojoeiros veteranos como 'o trator', devido à sua capacidade de manter a precisão mesmo após décadas sem manutenção (embora não recomendado).
3. Em 1947, a Certina ainda usava ocasionalmente peças marcadas com 'Grana' no interior, tornando alguns modelos Labora híbridos históricos interessantes com mostradores Certina e pontes de movimento assinadas Grana.
4. O design das asas (lugs) do Labora de 1947 variava drasticamente, desde as clássicas direitas até às exuberantes 'asas de aranha' (fancy lugs), refletindo a liberdade estética do pós-guerra.
5. Antes do conceito DS, o Labora foi um dos primeiros a testar sistematicamente a vedação de fundo de caixa roscado para prevenir a entrada de poeira fina, o maior inimigo dos óleos lubrificantes.
6. O Labora ganhou vários prémios de 'boa cronometria' em feiras suíças no final dos anos 40, validando a qualidade do calibre KF.
7. A tipografia do logótipo 'Certina' no mostrador de 1947 é frequentemente em escrita cursiva, um estilo distinto que precede o logótipo em letras maiúsculas e o símbolo da carapaça de tartaruga que viria mais tarde.