RESUMO
Em 1948, num mundo ansioso por inovação após a guerra, a Universal Genève apresentou o Calibre 138, o seu primeiro movimento automático. Longe de ser apenas uma atualização técnica, foi uma declaração de intenções, posicionando a marca na vanguarda da relojoaria de pulso moderna. Este movimento, conhecido como 'bumper' ou 'auto à butoirs', representou uma tecnologia de transição crucial entre os calibres de corda manual e os futuros rotores de 360 graus. O seu público-alvo era o cavalheiro contemporâneo que procurava a conveniência de um relógio automático sem abdicar da elegância e da fineza de um relógio de cerimónia. A filosofia de design era clara: robustez, fiabilidade e uma experiência de utilização única, caracterizada pela suave vibração do martelo oscilante. O Calibre 138 não foi apenas um motor; foi a alma dos primeiros modelos Monodatic, relógios que combinavam a leitura do tempo com a prática complicação de data. A sua importância transcende a sua mecânica; ele representa a fundação sobre a qual a Universal Genève construiria a sua reputação lendária em movimentos automáticos, abrindo caminho para a sua maior inovação, o Micro-rotor, poucos anos depois. É uma peça fundamental na história da marca e um marco na evolução do relógio de pulso automático.
HISTÓRIA
O lançamento do Calibre 138 em 1948 não foi um evento isolado, mas sim a resposta estratégica da Universal Genève a uma mudança fundamental no paradigma da relojoaria do pós-guerra. A década de 1940 viu a ascensão do relógio de pulso automático como o auge da conveniência e do luxo prático. Marcas como Rolex, com o seu rotor Perpetual, e Omega, com os seus próprios calibres 'bumper', já estavam a definir o mercado. A Universal Genève, até então celebrada principalmente pelos seus sofisticados cronógrafos da série Compax, reconheceu a necessidade imperativa de competir neste novo e excitante campo. O Calibre 138 foi a sua formidável entrada. Desenvolvido inteiramente 'in-house' nas suas instalações de Ponts-de-Martel, o movimento 'auto à butoirs' era uma maravilha de engenharia para a época. Ao contrário de um rotor de 360 graus, a sua massa oscilante em forma de martelo movia-se num arco de aproximadamente 120 graus, colidindo suavemente com duas molas de ressalto que a impulsionavam de volta, enrolando a mola principal em cada oscilação. Este sistema, embora menos eficiente que os rotores completos que se seguiriam, era robusto, fiável e conferia ao relógio uma personalidade única e tangível no pulso. Este calibre tornou-se o coração de uma nova linha de relógios de cerimónia excecionalmente elegantes, mais notavelmente os primeiros modelos Monodatic. Estes relógios personificavam a estética de meados do século: caixas de tamanho modesto e refinado, mostradores limpos com índices aplicados e uma janela de data às 3 horas, uma complicação altamente desejável. O Monodatic, equipado com a variante Calibre 138C, oferecia ao seu portador a modernidade de um relógio automático com a utilidade da data, encapsulada num design intemporal. O Calibre 138 teve uma vida relativamente curta, mas o seu impacto foi profundo. Serviu como uma plataforma de aprendizagem e desenvolvimento essencial. As lições aprendidas com as suas limitações, como o desgaste potencial nas molas de ressalto e a eficiência de enrolamento, levaram diretamente os engenheiros da Universal Genève a procurar uma solução mais elegante e eficiente. Essa busca culminou, em 1955, na criação do lendário Calibre 215 com Micro-rotor, uma inovação que definiria a marca por décadas. Assim, o Calibre 138 não deve ser visto como uma mera nota de rodapé, mas como o capítulo fundamental que tornou possível a idade de ouro da Universal Genève em relojoaria automática, solidificando a sua reputação como uma verdadeira manufatura de vanguarda.
CURIOSIDADES
O termo 'Bumper' (para-choques) é uma alcunha de colecionador que descreve perfeitamente a ação do rotor, que 'bate' nas molas de ressalto. O utilizador pode sentir e por vezes ouvir um leve 'baque' quando move o pulso, uma característica charmosa e distintiva destes movimentos.
Desenvolvido inteiramente nas instalações de fabrico da Universal Genève em Ponts-de-Martel, o Calibre 138 foi uma afirmação da sua capacidade como manufatura integrada, numa era em que muitas marcas dependiam de fornecedores externos.
O sistema dependia de duas pequenas, mas cruciais, molas helicoidais montadas na platina do movimento para absorver o impacto da massa oscilante, uma solução de engenharia elegante para a época.
Existiram diversas variantes do calibre base, sendo a mais comum a 138C (com segundos centrais e data, usada nos Monodatic) e a Calibre 139, uma versão ligeiramente maior projetada para caixas de maiores dimensões.
O Calibre 138 representa uma 'tecnologia de transição', existindo numa janela histórica fascinante entre a corda manual e os automáticos de rotor completo, o que o torna um alvo particularmente interessante para colecionadores de relógios históricos.
O nome 'Monodatic' é uma junção das palavras 'Mono' (único) e 'Datic' (data), um nome de marketing simples e eficaz para destacar a sua principal função e complicação na época.
Este movimento foi um concorrente direto dos famosos calibres 'bumper' da Omega (série 3xx), colocando a Universal Genève em pé de igualdade com os maiores nomes da indústria suíça no desenvolvimento de relógios automáticos.