RESUMO
Lançado em 2004, o Master Grande Tradition Gyrotourbillon 1 não foi apenas um relógio; foi uma declaração de supremacia técnica da Jaeger-LeCoultre. Num período em que a relojoaria mecânica reafirmava o seu valor através de inovações de tirar o fôlego, a 'Grande Maison' do Vallée de Joux apresentou o primeiro turbilhão esférico multi-eixos do mundo num relógio de pulso. Posicionado no pináculo absoluto da alta relojoaria, o Gyrotourbillon 1 destinava-se a uma elite de colecionadores e conhecedores que procuravam não um mero instrumento para ver as horas, mas uma peça de arte cinética e um marco na história da cronometria. A sua filosofia de design é um estudo de contrastes: a caixa clássica e sóbria da linha Master Grande Tradition serve de palco para o espetáculo vanguardista do turbilhão que gira em dois eixos, visível através de uma grande abertura no mostrador. Esta peça não foi criada para ser subtil; foi concebida para ser admirada, discutida e para solidificar a reputação da JLC como 'a relojoeira dos relojoeiros'. A sua importância reside na forma como elevou o padrão para as grandes complicações, desencadeando uma nova corrida entre as manufaturas de prestígio para dominar a cronometria multi-dimensional e provando que os limites da micro-mecânica ainda estavam longe de ser alcançados.
HISTÓRIA
No dealbar do século XXI, a indústria relojoeira suíça vivia uma era de renascimento e exuberância técnica. O Salão Internacional de Alta Relojoaria (SIHH) de 2004 foi o palco escolhido pela Jaeger-LeCoultre para desvendar uma criação que viria a definir a sua década: o Master Grande Tradition Gyrotourbillon 1. Este relógio não foi uma mera evolução; foi um salto quântico, uma materialização da ambição da manufatura em reafirmar o seu domínio histórico na criação de movimentos complexos. O conceito de um escape que girasse em múltiplos eixos para combater a gravidade não era totalmente novo – existia em relógios de pêndulo e de carruagem do século XVIII – mas a sua miniaturização para as dimensões de um relógio de pulso era considerada uma fronteira quase intransponível. A equipa liderada pelo mestre relojoeiro Eric Coudray, sob a visão estratégica de Jérôme Lambert, CEO da época, dedicou anos de pesquisa e desenvolvimento para dar vida ao Calibre 177. O resultado foi um espetáculo mecânico: um turbilhão leve, composto por mais de 90 peças em titânio e alumínio, que executava uma valsa tridimensional dentro de uma gaiola esférica. O Gyrotourbillon 1, com a referência 149.6.07.S, foi apresentado numa imponente caixa de platina e produzido numa edição estritamente limitada a 75 exemplares, lançados ao ritmo de 25 por ano. Para além da sua proeza cronométrica, o relógio albergava um conjunto de complicações astronómicas, incluindo um calendário perpétuo com data retrógrada e uma raríssima equação do tempo, demonstrando um profundo respeito pela relojoaria clássica. O impacto do Gyrotourbillon 1 foi imediato e profundo. Estabeleceu um novo patamar para o que era considerado uma 'grande complicação' e iniciou uma competição saudável entre as marcas de topo, como a Greubel Forsey e a Vacheron Constantin, para explorarem a cronometria multi-eixos. O sucesso desta peça seminal deu origem a uma linhagem de sucessores, cada um explorando uma nova faceta da invenção: o Gyrotourbillon 2 (2008) no icónico caixa Reverso e com uma mola de balanço cilíndrica para maior precisão; o Gyrotourbillon 3 (2013) com um turbilhão voador e um cronógrafo digital; e o Reverso Tribute Gyrotourbillon (2016), uma versão mais compacta e usável. Hoje, o Gyrotourbillon 1 original é visto como uma peça de investimento e um ícone da relojoaria moderna, um testemunho da capacidade da Jaeger-LeCoultre de sonhar o impossível e transformá-lo numa realidade mecânica pulsante.
CURIOSIDADES
A complexa gaiola do turbilhão esférico, uma obra de arte da micro-engenharia, é composta por mais de 90 componentes, mas pesa uns meros 0,33 gramas.
A inclusão da complicação 'Equação do Tempo' é um tributo à relojoaria astronómica clássica. Esta função exibe a diferença, que pode chegar a 16 minutos, entre o tempo solar aparente (o dia real) e o tempo civil médio (as nossas 24 horas).
O projeto foi tão secreto e ambicioso que ficou conhecido internamente na Jaeger-LeCoultre como 'Projecto XYZ' durante a sua fase de desenvolvimento.
O Calibre 177, que alimenta o relógio, não só integra o turbilhão e o calendário perpétuo, como também oferece uma impressionante reserva de marcha de 8 dias, algo notável para um movimento com um escape tão consumidor de energia.
Embora o Gyrotourbillon 1 não tenha aparecido em filmes, o seu sucessor, o Reverso Gyrotourbillon 2, foi usado por Robert Downey Jr. no papel de Tony Stark em 'Homem de Ferro 2', trazendo o conceito do turbilhão multi-eixos para a cultura popular.
Devido à sua extrema raridade e importância histórica, os exemplares do Gyrotourbillon 1 atingem valores significativos em leilões, sendo considerados peças 'grail' por colecionadores de topo, frequentemente vendidos por valores entre 200.000 e 300.000 dólares.