RESUMO
No auge da era espacial e da experimentação horológica dos anos 70, a Certina lançou uma peça de engenharia que transcendia a medição do tempo cronológico para medir o 'tempo biológico'. O Certina Biostar, consolidado comercialmente por volta de 1971, permanece como o primeiro relógio de pulso do mundo desenhado para exibir os biorritmos humanos. Numa época em que a teoria dos ciclos vitais ganhava tração popular, a Certina desenvolveu o notável Calibre 28-353, um movimento automático capaz de rastrear simultaneamente três ciclos independentes: físico, emocional e intelectual. Visualmente distinto, o relógio apresentava janelas no mostrador (tipicamente às 12 horas ou distribuídas entre as 9 e as 3 horas, dependendo da versão da caixa) onde discos coloridos indicavam o estado atual de cada ciclo. Não era apenas um instrumento de cronometragem, mas um computador analógico de bem-estar, prometendo ao utilizador a capacidade de prever dias críticos e picos de performance. O Biostar é um artefato cultural e técnico, representando a audácia da relojoaria suíça pré-crise do quartzo, fundindo a mecânica de precisão com a pseudociência popular da época.
HISTÓRIA
A história do Certina Biostar é uma das mais fascinantes intersecções entre a horologia suíça tradicional e as tendências socioculturais do século XX. Para compreender o modelo de 1971 e o seu Calibre 28-353, é necessário recuar à génese da teoria dos biorritmos. Desenvolvida no final do século XIX por Wilhelm Fliess e popularizada nas décadas de 1960 e 1970, a teoria postulava que a vida humana é governada por ciclos rítmicos previsíveis iniciados no momento do nascimento: um ciclo físico de 23 dias, um ciclo emocional de 28 dias e um ciclo intelectual de 33 dias.
A Certina, conhecida pela sua robustez (conceito DS - Double Security), decidiu aceitar o desafio técnico de transpor estes ritmos matemáticos para um mecanismo de rodas dentadas. O resultado foi o Calibre 28-353. Lançado inicialmente em meados da década de 60 e atingindo o seu apogeu de design e marketing em 1971, este movimento foi uma proeza de microengenharia. Ao contrário de um calendário perpétuo ou de uma fase da lua, o movimento exigia três relações de transmissão distintas e ímpares que não se alinhavam com a medição padrão do tempo de 12 ou 24 horas.
O funcionamento do Biostar baseava-se na interação do utilizador. Ao adquirir o relógio, o proprietário recebia um 'Biostar-Pass' ou tabelas de referência. Era necessário calcular a posição dos seus ciclos com base na data de nascimento e, em seguida, ajustar o relógio. Uma vez sincronizado, o mecanismo avançava os discos coloridos diariamente. Quando o indicador mostrava a cor cheia, o ciclo estava no seu pico (positivo); quando a cor desaparecia ou mudava de tonalidade, indicava uma fase de recarga ou um dia 'crítico' de transição.
Em 1971, o design do Biostar abraçou totalmente a estética da época. As caixas tornaram-se mais volumosas, típicas do estilo 'funky' dos anos 70, e os mostradores exibiam uma clareza futurista. Apesar da inovação, o Biostar permaneceu um produto de nicho. A complexidade de configuração inicial e o ceticismo crescente em relação à ciência dos biorritmos, aliados à iminente revolução do quartzo, tornaram o Biostar numa raridade. Hoje, para o colecionador, o Certina Biostar com o calibre 28-353 representa um momento singular de otimismo mecânico, onde se acreditava que um relógio poderia não só dizer as horas, mas também dizer como nos deveríamos sentir.
CURIOSIDADES
O esquema de cores era padronizado para leitura rápida: Vermelho para o ciclo Físico, Azul para o Emocional e Verde para o Intelectual.
Os ciclos matemáticos utilizados no mecanismo são números primos entre si ou próximos disso, dificultando extremamente o cálculo das relações de engrenagem: 23, 28 e 33 dias.
O Certina Biostar foi o primeiro relógio de pulso a integrar esta função, embora mais tarde tenham surgido versões de bolso e relógios de mesa eletrónicos (Mectron) com a mesma função.
Para ajustar o relógio corretamente, o utilizador tinha muitas vezes de consultar um livreto criptográfico fornecido na caixa, tornando a 'experiência de unboxing' muito mais complexa do que num relógio normal.
A data de 1971 é frequentemente associada à campanha publicitária mais icónica do modelo, que posicionava o relógio como uma ferramenta essencial para gestores e atletas que precisavam de saber os seus 'dias críticos'.