RESUMO
Lançado em 2019 sob a referência L2.828.4.73.0, o Longines Heritage Classic Sector Dial representa um dos momentos mais celebrados na horologia moderna acessível, marcando o apogeu da linha 'Heritage' da manufatura de Saint-Imier. Este relógio não é apenas uma reprodução; é uma curadoria meticulosa de um design original de 1934, executada com uma fidelidade raramente vista em reedições contemporâneas. O modelo distingue-se imediatamente pelo seu mostrador setorial ('sector dial') em dois tons, uma estética que dominou a relojoaria científica e militar da década de 1930, oferecendo legibilidade superior através de zonas concêntricas contrastantes. A Longines demonstrou uma contenção louvável ao manter as dimensões da caixa em modestos 38,5 mm e, crucialmente, ao resistir à tentação de incluir uma janela de data ou texto supérfluo como 'Automatic' no mostrador. Sob o capô, o relógio é impulsionado pelo Calibre L893, um movimento exclusivo desenvolvido pela ETA para a Longines, que permite o posicionamento historicamente correto do submostrador de pequenos segundos, evitando o aspecto 'vesgo' (cross-eyed) comum em relógios modernos que tentam emular layouts vintage. Combinando um cristal de safira em formato de caixa ('box-shape'), ponteiros em aço azulado termicamente e uma espiral de silício antimagnética, esta peça harmoniza o charme do Art Déco com a robustez da engenharia do século XXI, solidificando-se instantaneamente como um futuro clássico.
HISTÓRIA
A história do Longines Heritage Classic Sector Dial transcende o seu lançamento em 2019, mergulhando profundamente na era de ouro do design funcionalista do período entre guerras. Para compreender a gravidade deste modelo, é necessário revisitar o ano de 1934, quando o relógio original que serviu de musa foi concebido. Naquela época, a Longines não era apenas uma fabricante de relógios de luxo, mas uma fornecedora essencial de instrumentos de precisão para exploração, aviação e cronometragem desportiva. O conceito de 'Sector Dial' (mostrador setorial) surgiu não por vaidade estética, mas por necessidade científica. A divisão do mostrador em segmentos concêntricos claros — separando as horas, minutos e segundos em trilhos distintos — facilitava a leitura rápida e precisa, uma característica vital para oficiais militares e cientistas.
Durante décadas, a Longines manteve um dos arquivos mais completos da indústria relojoeira em Saint-Imier. Quando a equipe de 'Heritage' decidiu revisitar este design específico de 1934, enfrentou um desafio recorrente na indústria: como atualizar a tecnologia sem corromper a alma do design. Historicamente, muitas marcas falharam ao aumentar exageradamente os tamanhos das caixas para 42mm ou inserir janelas de data em posições que destruíam a simetria do mostrador, tudo para apelar a um mercado de massa. O modelo de 2019, contudo, representou uma mudança de paradigma e uma vitória para os puristas.
A decisão de manter o diâmetro em 38,5 mm foi fundamental, preservando as proporções elegantes que definiam os relógios de pulso masculinos da década de 30, mas com uma presença ligeiramente modernizada. Contudo, a maior conquista técnica e histórica reside no movimento. A Longines, pertencente ao Swatch Group, encomendou à ETA um movimento exclusivo para sua linha Heritage: o L893. A importância deste calibre não pode ser subestimada. A maioria dos movimentos automáticos modernos é pequena demais para caixas grandes, fazendo com que o submostrador de pequenos segundos flutue desajeitadamente perto do centro do relógio. O L893 foi projetado para deslocar o eixo dos segundos para baixo, permitindo que o submostrador ocupe a posição correta na parte inferior do mostrador, replicando a geometria exata do modelo de 1934 que utilizava grandes calibres de bolso adaptados.
Além disso, o acabamento do mostrador em 2019 foi executado com uma atenção maníaca aos detalhes. O contraste entre o disco central prateado opaco e o anel das horas com acabamento escovado circular cria uma interação de luz que confere profundidade e sofisticação, honrando o estilo Art Déco. A ausência da complicação de data foi a decisão final que consagrou este modelo como uma 'reinterpretação fiel'. Ao remover a data, a Longines permitiu que o design respirasse, mantendo a integridade do 'cross-hair' (mira) central e a limpeza visual que caracterizava os instrumentos da década de 1930. O Heritage Classic Sector Dial de 2019 não é, portanto, apenas um relógio 'retrô'; é um documento histórico tangível que prova que, na alta horologia, a perfeição muitas vezes é alcançada não pelo que se adiciona, mas pelo que se tem a coragem de manter inalterado.
CURIOSIDADES
O modelo original de 1934, que inspirou esta reedição, encontra-se preservado no Museu Longines em Saint-Imier e é frequentemente utilizado pela marca para demonstrar a consistência do seu DNA de design.
O termo 'Sector Dial' refere-se especificamente à 'via férrea' interna fechada que separa as horas dos minutos, uma característica popularizada nos anos 30 por marcas como Omega, Patek Philippe e Longines para uso científico.
Ao contrário do modelo original de 1934, que possuía um movimento de corda manual, a reedição de 2019 utiliza um movimento automático, mas sem a inscrição 'Automatic' no mostrador para manter a pureza estética.
A frequência do movimento foi reduzida intencionalmente para 25.200 vph (3,5 Hz) em vez dos habituais 28.800 vph, uma modificação técnica que permitiu estender a reserva de marcha para impressionantes 72 horas.
O relógio vem com uma ferramenta específica para troca de pulseiras, pois foi comercializado com a intenção de ser usado tanto com a pulseira de couro quanto com uma pulseira NATO (frequentemente azul denim ou couro cru) para um visual mais casual.
A espiral de silício no calibre L893 não é apenas uma modernidade; ela resolve um dos maiores problemas dos relógios vintage originais: a magnetização, garantindo uma precisão cronométrica estável no mundo moderno cheio de eletrônicos.
Este modelo é amplamente citado por críticos e colecionadores (como os do GPHG e sites especializados como Hodinkee) como um dos melhores exemplos de 'Value Proposition' (custo-benefício) na relojoaria suíça de luxo.