RESUMO
Lançado em 2010, o Calibre 1904 MC representa um ponto de viragem fundamental na história horológica da Cartier. Mais do que um simples movimento, foi uma audaciosa declaração de independência e proeza técnica, assinalando a transição da Maison de uma joalharia que produzia relógios para uma autêntica 'manufacture d'horlogerie'. Concebido desde o início para ser um motor de trabalho robusto, fiável e versátil, o 1904 MC foi a resposta da Cartier à crescente necessidade de controlo sobre a sua produção e de se afastar da dependência de fornecedores externos como a ETA. A sua filosofia de design focou-se não em complicações exóticas, mas na excelência cronométrica para o uso diário. Com características como um tambor de corda duplo para um fornecimento de energia estável e um rotor de corda bidirecional montado em rolamentos de cerâmica para eficiência e durabilidade, o calibre foi projetado para o desempenho. O seu lançamento no modelo 'Calibre de Cartier', um relógio com uma estética marcadamente masculina e desportiva, posicionou este movimento como a base para uma nova era de relógios masculinos da Cartier, destinados a um público que valorizava tanto a herança de design da marca como a substância mecânica interna. O 1904 MC não foi apenas um sucesso técnico; foi o pilar sobre o qual a Cartier construiu a sua legitimidade relojoeira para o século XXI.
HISTÓRIA
A génese do Calibre 1904 MC está intrinsecamente ligada à estratégia de verticalização do Grupo Richemont no início do século XXI. Durante décadas, a Cartier, apesar do seu imenso prestígio, dependeu de movimentos fornecidos por terceiros, como ETA, Jaeger-LeCoultre e Piaget. Embora estes fossem de alta qualidade, a crescente procura e as restrições de fornecimento por parte dos grandes produtores de 'ébauches' tornaram imperativo o desenvolvimento de um calibre próprio, que servisse de esteio para a sua coleção principal. Este projeto estratégico, culminado na moderna manufatura da Cartier em La Chaux-de-Fonds, foi liderado pela visionária Carole Forestier-Kasapi, diretora de desenvolvimento de movimentos da Maison. O objetivo não era criar um calibre de alta complicação para peças de exceção, mas sim um 'trator': um movimento de base robusto, fiável, industrializável em grande escala e com uma arquitetura que permitisse futuras evoluções.
O nome, '1904', foi uma homenagem deliberada ao ano em que Louis Cartier criou o Santos-Dumont, considerado o primeiro relógio de pulso masculino, cimentando a legitimidade histórica da marca na relojoaria masculina. Quando foi apresentado em 2010, no Salão Internacional de Alta Relojoaria (SIHH), o 1904 MC foi uma revelação. A sua arquitetura era visivelmente moderna e focada no desempenho. A presença de dois tambores de corda em série não visava aumentar a reserva de marcha, mas sim garantir um fornecimento de energia mais constante ao longo das 48 horas, melhorando a estabilidade cronométrica (isocronismo) à medida que a mola principal se desenrolava. Outra inovação crucial foi o seu sistema de corda automático, que utilizava uma alavanca de lingueta em forma de V para carregar o movimento em ambas as direções de rotação do rotor. Este sistema, notavelmente eficiente, era montado em rolamentos de esferas de cerâmica em vez de aço, eliminando a necessidade de lubrificação e aumentando drasticamente a durabilidade a longo prazo.
O calibre estreou no relógio 'Calibre de Cartier', um modelo com um design novo e assertivo, cuja caixa robusta e mostrador dinâmico foram concebidos para projetar força e precisão mecânica, servindo de vitrina perfeita para o novo motor. O sucesso foi imediato e transformador. O 1904 MC não só silenciou os críticos que ainda viam a Cartier primariamente como uma casa de joalharia, como também se tornou numa plataforma incrivelmente versátil. Pouco depois, em 2013, a Cartier lançou o 1904-CH MC, uma evolução com um cronógrafo integrado que exibia refinamentos técnicos como uma roda de colunas e uma embraiagem vertical — características de um design de cronógrafo de alta gama. Ao longo da década seguinte, o 1904 MC e as suas variantes foram implementados numa vasta gama de coleções, incluindo o Tank MC, o Ballon Bleu, o Clé de Cartier e o Drive, tornando-se o coração pulsante da relojoaria masculina moderna da Cartier e solidificando o seu estatuto como uma manufatura de pleno direito.
CURIOSIDADES
O nome '1904' é uma homenagem direta ao ano em que Louis Cartier criou o relógio de pulso Santos-Dumont para o seu amigo aviador, Alberto Santos-Dumont, um marco na história da relojoaria.
O movimento foi desenvolvido sob a liderança de Carole Forestier-Kasapi, uma das mais influentes e premiadas designers de movimentos da sua geração, conhecida pela sua abordagem inovadora e tecnicamente brilhante.
O sistema de corda bidirecional, com a sua alavanca de lingueta, é conceptualmente semelhante ao famoso 'Magic Lever' da Seiko, um sistema reconhecido pela sua simplicidade, robustez e elevada eficiência de carregamento.
Ao contrário de muitos movimentos 'in-house' que podem ser delicados, o 1904 MC foi projetado especificamente para ser um calibre 'trator' (workhorse), focado na durabilidade, fiabilidade e facilidade de manutenção em larga escala.
A versão cronógrafo, o 1904-CH MC, é um movimento integrado (não modular) que utiliza uma roda de colunas para o acionamento das funções e uma embraiagem vertical para um arranque suave do ponteiro dos segundos, especificações técnicas muito apreciadas pelos conhecedores.
Apesar do seu foco técnico, a Cartier não descurou a estética. O movimento apresenta um acabamento cuidado, com pontes e platina decoradas com Côtes de Genève e um rotor esqueletizado com o logótipo da marca.
O relógio de lançamento, 'Calibre de Cartier', foi um dos primeiros modelos da marca a apresentar uma coroa proeminente com um espinélio azul sintético facetado, em vez da tradicional safira cabochão, marcando uma subtil modernização dos códigos de design da Maison.