RESUMO
O Casio TM-100 representa um momento singular e audacioso na história da relojoaria digital, uma era em que a funcionalidade de um relógio era limitada apenas pela imaginação dos seus engenheiros. Lançado em 1987, no auge da obsessão por gadgets eletrónicos, o TM-100 não se destinava ao aviador, ao mergulhador ou ao executivo. O seu público-alvo era o entusiasta da tecnologia, o indivíduo fascinado pela miniaturização e pelas possibilidades da eletrónica de consumo. A sua filosofia de design era radicalmente funcional, onde a forma seguia uma função extraordinária: a transmissão de voz. Cada linha da sua caixa de resina, cada botão, foi concebido em torno da sua capacidade central de operar como um transmissor FM. Mais do que um mero relógio, era um dispositivo de comunicação de curto alcance, um 'walkie-talkie' de pulso que capturava o espírito de espionagem e ficção científica da década de 1980. A sua importância horológica não reside na precisão ou no artesanato mecânico, mas sim no seu papel como um marco na evolução da tecnologia vestível. O TM-100 é um antepassado conceitual dos smartwatches modernos, uma prova ousada da ambição da Casio em redefinir perpetuamente os limites do que um relógio poderia ser, transformando um objeto de medição do tempo num portal para a interação e comunicação.
HISTÓRIA
No coração da década de 1980, a indústria relojoeira japonesa vivia uma era de ouro de inovação desenfreada. A crise do quartzo havia consolidado o domínio da eletrónica, e empresas como a Casio não competiam apenas em precisão, mas numa corrida armamentista tecnológica para integrar o maior número possível de funções num relógio de pulso. Foi neste cenário de efervescência criativa que, em 1987, a Casio apresentou ao mundo o TM-100, um relógio que parecia saído diretamente de um filme de espionagem. O conceito era tão simples quanto revolucionário: um relógio que podia transmitir a voz do utilizador para qualquer rádio FM próximo. Não havia um predecessor direto para esta tecnologia; enquanto a Casio já tinha no seu portfólio relógios com calculadora, banco de dados e até jogos, a transmissão de áudio era um território completamente novo. A criação do TM-100 foi um triunfo da miniaturização. Os engenheiros da Casio conseguiram integrar um microfone sensível, um módulo transmissor de FM e uma antena — engenhosamente embutida na própria bracelete de resina — numa caixa de relógio compacta, sem sacrificar as funções padrão de um relógio digital, como alarme e cronógrafo. O seu funcionamento era intuitivo: o utilizador pressionava um botão proeminente na frente da caixa para ativar a transmissão e falava na direção de um pequeno orifício que abrigava o microfone. A sua voz era então transmitida numa frequência FM de curto alcance, podendo ser captada por um rádio de bolso, o rádio do carro ou um sistema de som doméstico. O TM-100 não teve 'gerações' ou 'Marks' como os relógios mecânicos suíços. Foi uma criação singular, um produto de 'declaração' que existiu para provar que era possível. Não surgiram modelos TM-200 ou TM-300 com a mesma função, pois a tecnologia evoluiu rapidamente para outras formas de comunicação, como os controlos remotos infravermelhos (vistos na linha Casio CMD) e, décadas mais tarde, o Bluetooth. No entanto, o seu impacto foi profundo. Cimentou a imagem da Casio como uma marca destemida, disposta a experimentar com ideias que roçavam a ficção científica. Para os colecionadores de hoje, o TM-100 é mais do que um relógio; é uma cápsula do tempo, um artefacto que encapsula o otimismo tecnológico e a estética lúdica dos anos 80. Encontrar um exemplar em pleno funcionamento, com a sua bracelete-antena intacta, é um desafio que fascina os aficionados da relojoaria digital, representando um pináculo da engenhosidade 'fora da caixa' da Casio.
CURIOSIDADES
O apelido mais comum entre colecionadores é simplesmente 'Voice Transmitter', o nome da sua função principal estampado na caixa.
A antena do transmissor não era externa, mas sim um fio metálico cuidadosamente moldado e embutido dentro da bracelete de resina original. Uma bracelete partida significava o fim da funcionalidade de transmissão, tornando os exemplares com braceletes intactas extremamente raros e valiosos hoje em dia.
O alcance prático da transmissão era de apenas alguns metros, tornando-o mais um gadget divertido para pregar partidas a amigos do que uma ferramenta de espionagem viável. Podia-se, por exemplo, falar 'secretamente' através do rádio do carro de um amigo que estivesse próximo.
A frequência de transmissão não era universalmente ajustável, operando numa banda FM baixa (geralmente entre 76.1 e 88.9 MHz) para minimizar a interferência com estações de rádio comerciais.
O consumo de energia durante a transmissão era substancialmente maior do que o da função de relógio, exigindo um uso criterioso para não esgotar a bateria rapidamente.
Embora não haja registos de ter sido usado oficialmente em filmes, a sua estética e função tornaram-no o 'relógio de pulso de espião' por excelência na imaginação de muitos jovens dos anos 80.
O manual de instruções continha avisos sobre a legalidade da transmissão de rádio em certas jurisdições, acrescentando um toque de intriga e perigo ao seu uso.