RESUMO
O ano de 1958 marcou um ponto de inflexão na alta relojoaria, simbolizado pela Feira Mundial de Bruxelas (Expo 58), um evento que celebrava o progresso tecnológico e o otimismo da Era Atômica. Neste cenário de inovação futurista, a Maison Juvenia, estabelecida em La Chaux-de-Fonds, apresentou uma obra-prima que desafiava as limitações físicas da micromecânica: o modelo 'Slim' (Ultra-Plate). Equipado com o extraordinário Calibre 604, cuja arquitetura media uns inverosímeis 1.4mm de espessura, este relógio não era apenas um instrumento de medição do tempo, mas uma declaração de elegância minimalista. Numa época em que a 'corrida pela espessura' envolvia gigantes como Piaget e Audemars Piguet, a Juvenia conseguiu criar um movimento que oferecia estabilidade cronométrica num perfil quase bidimensional. O reconhecimento foi imediato e glorioso: o modelo garantiu à marca o prestigiado Grand Prix na feira de Bruxelas. Este relógio representa o auge do design 'mid-century modern', onde a forma segue a função numa simbiose perfeita, transformando o relógio numa 'segunda pele' de ouro para o cavalheiro distinto da década de 50.
HISTÓRIA
A história do Juvenia Slim de 1958 e do seu Calibre 604 é um capítulo fascinante naquilo que os historiadores horológicos chamam de 'A Guerra da Espessura' (The Thin Watch Wars) dos anos 50 e 60. Fundada em 1860 por Jacques Didisheim, a Juvenia sempre foi conhecida pela sua abordagem vanguardista e estética — frequentemente citada pelos seus designs arquitetónicos como o 'Mystère' ou o 'Sextant'. No entanto, em meados do século XX, a credibilidade técnica de uma manufatura era medida pela sua capacidade de miniaturização.
Em 1958, o mundo convergiu para a Bélgica para a primeira grande Expo Mundial pós-Segunda Guerra. O tema era o progresso humanista e tecnológico. Enquanto a arquitetura celebrava o átomo (com o Atomium), a relojoaria celebrava o invisível. A Juvenia, determinada a não ser vista apenas como uma marca de 'design', investiu pesadamente em P&D para produzir o Calibre 604. Construir um movimento mecânico de 1.4mm exigia tolerâncias microscópicas; a placa base e as pontes precisavam ser rígidas o suficiente para não deformar sob a tensão da mola principal, mas finas o suficiente para desaparecer no pulso.
O sucesso do modelo Slim na Expo 58 foi retumbante. O júri do Grand Prix reconheceu que a Juvenia não tinha apenas feito um relógio fino; tinha resolvido o problema da fiabilidade em ultra-finos. Diferente de alguns concorrentes que eram frágeis a ponto de pararem se a caixa fosse apertada com força, o sistema de caixa monobloco ou de construção reforçada do Juvenia Slim protegia o delicado Calibre 604. Este modelo solidificou a reputação da Juvenia entre a aristocracia europeia e os colecionadores de elite, provando que a marca de La Chaux-de-Fonds podia competir cabeça-a-cabeça com a 'Santíssima Trindade' da relojoaria suíça em termos de engenharia de precisão. O modelo de 1958 permanece, até hoje, como o 'Graal' dos colecionadores da marca, um testemunho de uma era onde a elegância era medida em décimos de milímetro.
CURIOSIDADES
1. O Calibre 604 de 1.4mm era, na época, mais fino que uma moeda de 5 francos suíços, exigindo que os relojoeiros trabalhassem sob microscópios de alta potência raros para a época.
2. Para atingir tal espessura, o mostrador do relógio muitas vezes não tinha 'pés' de fixação tradicionais, sendo fixado por tensão ou parafusos laterais microscópicos para economizar altura vertical.
3. A Juvenia utilizou o prêmio 'Grand Prix de Bruxelas' em materiais de marketing por mais de uma década, gravando o feito no fundo das caixas de modelos subsequentes.
4. O modelo era tão fino que a coroa muitas vezes tinha que ser operada com uma ferramenta especial ou com a unha de forma muito precisa, pois mal sobressaía da caixa.
5. Embora a Piaget seja frequentemente creditada pela revolução ultra-fina com o calibre 9P (lançado em 1957, com 2mm), o Calibre 604 da Juvenia superou essa marca em espessura pura, embora fosse produzido em quantidades muito menores.
6. A caixa do modelo de 1958 foi desenhada para ter uma ligeira curvatura nas garras, permitindo que o relógio 'abraçasse' o pulso, mitigando a rigidez estrutural necessária para proteger o movimento.
7. Hoje, encontrar um Calibre 604 em condições de funcionamento é extremamente raro, pois muitos relojoeiros não qualificados danificaram as pontes ultra-finas durante manutenções nas décadas de 70 e 80.