RESUMO
Em meados da década de 1960, num mundo em plena efervescência cultural, Willy Breitling demonstrou uma visão de mercado notável. Compreendendo que uma nova geração de jovens profissionais e criativos emergia, com um poder de compra crescente e um desejo de autoexpressão, ele concebeu o Top Time. Lançado em 1964, este modelo foi uma rutura deliberada com os cronógrafos de aviação ultra-técnicos como o Navitimer, que haviam definido a marca. O Top Time foi posicionado como um cronógrafo de entrada, mais acessível, mas sem comprometer a qualidade suíça. O seu alvo não eram os pilotos ou engenheiros, mas sim os jovens dinâmicos – os 'jovens e ativos', como a própria publicidade da época declarava. A sua filosofia de design era ousada e pouco convencional; afastava-se da estrita funcionalidade para abraçar a moda e o estilo. Com caixas em formatos variados, desde as redondas clássicas até às arrojadas formas de almofada (cushion), e mostradores gráficos como os icónicos 'Panda' e 'Zorro', o Top Time tornou-se uma tela para a criatividade. A sua significância horológica reside precisamente nesta democratização do cronógrafo, transformando-o de uma ferramenta especializada num acessório de estilo de vida e num símbolo de individualidade para a vibrante subcultura dos anos 60.
HISTÓRIA
O nascimento do Breitling Top Time em 1964 não foi um acaso, mas sim uma resposta estratégica e genial de Willy Breitling às marés da mudança cultural. Os 'Swinging Sixties' foram uma era de otimismo, rebelião juvenil e uma nova apreciação pelo design e pela moda. Enquanto o catálogo da Breitling era dominado por cronógrafos-ferramenta de grande complexidade, como o Navitimer 806 e o Chronomat, Willy percebeu uma lacuna no mercado: um cronógrafo para o homem jovem que não era piloto, mas que apreciava a precisão mecânica e, acima de tudo, o estilo. O Top Time foi a sua resposta. Não evoluiu de um antecessor direto; em vez disso, criou um novo segmento para a marca.
As primeiras referências, como a 2002, estabeleceram a identidade do modelo: uma caixa redonda clássica, mas elegante, geralmente com cerca de 36mm, e um mostrador limpo e legível. Estes primeiros modelos eram alimentados por calibres de corda manual robustos e fiáveis, inicialmente o Venus 188 e, pouco depois, o seu sucessor direto, o Valjoux 7730. Esta escolha de movimento foi crucial, pois permitiu à Breitling oferecer o Top Time a um preço mais competitivo, tornando o prestígio de um cronógrafo suíço acessível a um público mais vasto.
O verdadeiro génio do Top Time revelou-se na sua evolução ao longo da década. A Breitling começou a experimentar ousadamente com formas e estéticas. Surgiram caixas quadradas e, mais notavelmente, caixas em formato de almofada ('cushion case'), que se tornaram um ícone da relojoaria dos anos 70. Os mostradores tornaram-se o ponto focal da sua identidade expressiva. A introdução de mostradores 'Panda' (mostrador claro com sub-mostradores escuros) e 'Reverse Panda' (o inverso) na linha Top Time ofereceu um contraste gráfico que era simultaneamente desportivo e sofisticado. A variação mais célebre é, sem dúvida, o mostrador 'Zorro' da Ref. 2003, com as suas duas secções triangulares contrastantes que se encontram no centro, criando um visual arrojado e inconfundível que grita 'anos 60'.
Entre as referências mais procuradas pelos colecionadores, destacam-se a Ref. 2002 pela sua ligação a James Bond, a Ref. 2003 pelo seu mostrador 'Zorro' e a Ref. 810, um modelo de três registadores frequentemente associado à família Top Time. A Ref. 810 era maior e utilizava o aclamado calibre Venus 178, o mesmo movimento dos primeiros Navitimers, tornando-a uma peça de transição entre o estilo do Top Time e a engenharia profissional da Breitling. O impacto do Top Time foi profundo: diversificou a base de clientes da Breitling e solidificou a ideia de que um cronógrafo podia ser tanto um instrumento de precisão como um objeto de design. A sua recente reintrodução no catálogo moderno da Breitling, com reedições fiéis e colaborações de edição limitada, é um testemunho do seu legado duradouro como um dos designs mais carismáticos e culturalmente relevantes da marca.
CURIOSIDADES
A sua aparição mais icónica foi no pulso de Sean Connery como James Bond no filme de 1965, 'Thunderball'. O relógio, uma Ref. 2002 modificada pela Q Branch, funcionava como um contador Geiger.
O relógio original usado em 'Thunderball' foi considerado perdido durante décadas, até ser redescoberto numa feira de artigos usados em Inglaterra, onde foi comprado por apenas £25. Em 2013, foi leiloado pela Christie's por mais de £100,000.
A comunidade de colecionadores atribuiu alcunhas a algumas das suas variantes mais distintas. O mais famoso é o 'Zorro Dial' para a Ref. 2003, devido ao seu padrão de mostrador que se assemelha à máscara do herói.
A transição dos movimentos Venus para Valjoux é um detalhe de produção importante. A Valjoux adquiriu a Venus em 1966, e o calibre Venus 188 foi rebatizado e produzido em massa como o Valjoux 7730, que se tornou um dos movimentos de cronógrafo manual mais utilizados na indústria.
Willy Breitling descreveu o público-alvo do relógio com uma clareza notável, afirmando que era para 'jovens e ativos profissionais... particularmente interessados em novos designs'.
As reedições modernas do Top Time mantêm o espírito original de subcultura através de colaborações com marcas de motociclismo como a Triumph e a Deus Ex Machina, bem como com fabricantes de automóveis clássicos como o Ford Mustang e o Chevrolet Corvette.
Embora a maioria dos Top Time fosse bi-compax (dois sub-mostradores), a Ref. 810 'Long-Playing' apresentava três sub-mostradores, incluindo um contador de 12 horas, tornando-a funcionalmente mais próxima de um Navitimer, mas com a estética Top Time.