RESUMO
Lançado em 1976 como o herdeiro direto da lendária linha DS-2, o Certina DS-3 representa um ponto de inflexão crucial na história da horologia suíça, situando-se na fronteira entre a era de ouro da manufatura mecânica e a revolução do quartzo. Este modelo não foi apenas uma atualização estética; foi uma afirmação de robustez industrial adaptada ao 'zeitgeist' dos anos 70. Abandonando as curvas suaves da década anterior, o DS-3 abraçou uma arquitetura de caixa angular, voluminosa e técnica, refletindo o brutalismo funcionalista da época. No seu coração, pulsava frequentemente o Calibre 919-1, um movimento de alta frequência (28.800 vph) que é hoje reverenciado como um dos últimos grandes calibres 'in-house' produzidos pela Certina antes da sua integração completa no conglomerado que viria a ser o Swatch Group. A reputação do DS-3 transcendido o mercado civil quando a variante de mergulho profundo (especialmente a configuração Super PH1000M) foi selecionada pela Marinha Real Australiana (RAN) para as suas unidades de mergulhadores de desminagem e combate. A combinação do sistema patenteado de 'Dupla Segurança' (DS), que isolava o movimento de choques através de um anel elástico de polímero, com uma estanqueidade extrema, solidificou este relógio como uma ferramenta de sobrevivência. Para o colecionador moderno, o DS-3 de 1976 é a síntese perfeita entre design audacioso, excelência mecânica terminal e proveniência militar comprovada.
HISTÓRIA
A história do Certina DS-3, introduzido especificamente em 1976, é a narrativa de uma marca que se recusou a comprometer a engenharia mecânica face a mudanças sísmicas na indústria relojoeira. Para compreender o DS-3, é necessário revisitar 1959, ano em que a Certina lançou o conceito 'Double Security' (DS). Este sistema revolucionário suspendia o movimento inteiro dentro da caixa usando um anel de elastômero, permitindo que o relógio sobrevivesse a quedas de até 6 metros – um feito inaudito na época. Após o sucesso retumbante do DS original e do seu sucessor, o DS-2 (1968), o mercado dos anos 70 exigia uma nova linguagem visual.
O ano de 1976 marcou a chegada do DS-3. Enquanto o DS-2 era caracterizado pelas suas formas 'C-shape' e curvas orgânicas dos anos 60, o DS-3 foi esculpido pela estética dos anos 70. O design tornou-se mais arquitetónico, com arestas vivas, superfícies planas escovadas e uma integração mais fluida entre a caixa e a bracelete, ecoando os designs de Gerald Genta que permeavam a alta relojoaria. Contudo, a verdadeira alma do DS-3 residia na sua mecânica. O modelo de 1976 foi o porta-estandarte do Calibre 919-1. Este movimento é de importância histórica crítica: foi um dos últimos movimentos verdadeiramente desenhados e manufaturados internamente pela Certina. Com uma frequência de 28.800 vph, o 919-1 oferecia uma precisão superior e uma robustez incrível, características que eram vitais para competir com a precisão emergente do quartzo.
A consagração do modelo veio através do seu serviço militar. A Marinha Real Australiana (RAN - Royal Australian Navy), procurando um substituto para os seus relógios de mergulho anteriores, testou rigorosamente o mercado. O DS-3, especificamente na sua iteração de mergulho de saturação (frequentemente a versão Super PH1000M, que partilhava a arquitetura da linha DS-3), foi o escolhido. Estes relógios não eram meros acessórios; eram Equipamento de Proteção Individual (EPI) vital. Utilizados durante operações de desminagem e mergulhos profundos, estes relógios suportaram pressões extremas e condições adversas no Pacífico Sul. Os modelos emitidos para a RAN são hoje o 'Santo Graal' para colecionadores da marca, distinguíveis pelas gravações NSN (National Stock Number) no fundo da caixa.
O DS-3 de 1976 simboliza também o fim de uma era. Poucos anos após o seu lançamento, a crise do quartzo forçaria a Certina a abandonar a produção dos seus próprios calibres e a integrar-se na estrutura da SMH (futuro Swatch Group), passando a utilizar movimentos ETA. Portanto, o DS-3 com o calibre 919-1 permanece como um monumento final à independência técnica da Certina, combinando a estética funk dos anos 70 com uma capacidade militar séria.
CURIOSIDADES
1. O Fundo de Caixa 'Turtle': Como tradição da linha DS, o fundo da caixa ostenta o famoso relevo de uma tartaruga, simbolizando longevidade e resistência à água.
2. Conexão RAN: Os modelos utilizados pela Marinha Real Australiana possuem frequentemente um número de inventário (NSN) gravado manualmente ou à máquina no verso, aumentando exponencialmente o seu valor de leilão.
3. O Último Suspiro da Manufatura: O Calibre 919-1 é considerado por relojoeiros como superior em construção a muitos movimentos ETA que o substituíram anos mais tarde.
4. Design Ergonómico: Apesar da aparência angular e volumosa típica de 1976, o fundo da caixa foi desenhado para 'assentar' no pulso, minimizando o movimento lateral durante atividades físicas.
5. Reedição Cult: A popularidade do design do DS-3 é tal que a Certina lançou uma reedição limitada em 2005 (limitada a 1888 peças), que se tornou instantaneamente um clássico de culto, embora usasse um movimento ETA moderno.
6. Ponteiros Plongeur: Muitas variantes de mergulho do DS-3 utilizavam ponteiros laranja brilhante de grandes dimensões (estilo Plongeur) para máxima legibilidade subaquática.
7. Inovação no Vidro: O DS-3 foi um dos pioneiros na transição generalizada dos acrílicos abaulados para vidros minerais planos e safiras na gama média-alta, visando maior resistência a riscos.