RESUMO
O Breguet No. 1176 não é meramente um relógio; é um artefacto fundamental na história da alta relojoaria, representando a estreia comercial da mais célebre invenção de Abraham-Louis Breguet. Concebido como um regulador de bolso de precisão, o seu propósito transcendia a simples medição do tempo. Era um instrumento científico destinado a um aristocrata esclarecido, o Conde Stanislas Potocki, e projetado para atingir uma perfeição cronométrica ao neutralizar os efeitos da gravidade sobre o órgão regulador. A sua filosofia de design é a de um génio no seu auge: uma estética neoclássica de elegância sublime que oculta um coração mecânico de complexidade sem precedentes para a sua época. O mostrador em esmalte, com a sua disposição de regulador, privilegia a clareza e a precisão. A sua importância monumental reside não apenas no seu mecanismo inovador, mas no facto de ter solidificado a reputação de Breguet como o mestre relojoeiro supremo da sua era. Vendido em 1809, o No. 1176 foi a declaração definitiva de supremacia técnica e artística, um marco que deu início ao legado de uma das mais cobiçadas complicações da horologia.
HISTÓRIA
A história do Breguet No. 1176 é a história da própria génese do turbilhão como uma complicação comercializável. Após patentear a sua invenção revolucionária a 26 de junho de 1801, Abraham-Louis Breguet embarcou numa década de desenvolvimento extenuante. O conceito era audacioso: montar o balanço e o escape dentro de uma gaiola rotativa para mediar os erros de cronometragem causados pela gravidade quando um relógio de bolso permanecia em posições verticais. A execução, no entanto, com as ferramentas do início do século XIX, era uma tarefa hercúlea que exigia um nível de micro-mecânica e metalurgia nunca antes visto.
Os primeiros protótipos, como o No. 169 oferecido ao filho do relojoeiro londrino John Arnold, e o No. 282, foram peças experimentais, nunca vendidas. O No. 1176, concluído e vendido em 1809, marca um ponto de viragem crucial: foi o primeiro relógio com turbilhão a ser oficialmente vendido a um cliente. O comprador, o Conde Stanislas Potocki da Polónia, era uma figura proeminente, um patrono das artes e das ciências, cujo gosto refletia o pináculo da sofisticação europeia. A aquisição deste relógio por uma soma colossal de 4.600 francos não foi apenas a compra de um relógio, mas um ato de mecenato e um reconhecimento do génio de Breguet.
Este relógio não pertence a uma 'geração' ou 'série' no sentido moderno. Cada um dos 35 turbilhões produzidos durante a vida de Breguet era uma criação única, feita por encomenda. O design do No. 1176, com a sua caixa maciça em ouro, o mostrador de esmalte impecável com layout de regulador e, claro, a hipnótica dança do turbilhão visível através do eixo dos segundos, estabeleceu o padrão estético e técnico para a alta complicação. Não houve uma evolução de 'Marks' ou 'Referências'; este relógio é o 'Mark I', o original. O seu impacto foi profundo e duradouro. Para a marca Breguet, cimentou um legado de inovação que perdura até hoje. Para a indústria, estabeleceu um novo cume de realização técnica, um 'santo graal' da relojoaria que, mais de dois séculos depois, continua a ser o teste final da habilidade de um mestre relojoeiro. O No. 1176 não é apenas uma peça na história da Breguet; é um capítulo fundador na história da própria medição do tempo.
CURIOSIDADES
Vendido ao Conde Stanislas Potocki, um nobre polaco, político e patrono das artes, por uma soma principesca de 4.600 francos em 1809.
Abraham-Louis Breguet produziu apenas cerca de 35 relógios com turbilhão durante a sua vida, tornando cada exemplar um artefacto de extrema raridade e importância.
O termo 'Tourbillon', que significa 'redemoinho' em francês, foi cunhado pelo próprio Breguet para descrever o movimento giratório e constante da gaiola do escape.
O relógio apresenta um mostrador 'regulador', onde os minutos, horas e segundos são exibidos em eixos separados para máxima clareza e precisão na leitura, um design tipicamente reservado para cronómetros de observatório.
Após uma longa jornada histórica, o relógio No. 1176 foi readquirido pela Casa Breguet e hoje é uma peça central insubstituível na coleção do Museu Breguet em Paris.
A invenção foi patenteada em 1801, mas a sua complexidade era tal que Breguet precisou de quase uma década para aperfeiçoar e finalmente comercializar o primeiro exemplar, este mesmo relógio.
O seu mecanismo de reserva de marcha, conhecido como 'reserve de marche', era outra inovação de Breguet, proporcionando uma indicação visual útil da energia restante na mola principal.