RESUMO
No epicentro da revolução cultural e do design dos anos 70, a Seiko lançou a linha Advan, uma ousada declaração de vanguarda destinada a capturar o espírito da juventude japonesa. Longe da sobriedade funcional dos seus relógios de mergulho ou da precisão austera dos Grand Seiko, o Advan era uma explosão de criatividade desenfreada. A sua filosofia de design era radical: abandonar as convenções e abraçar o experimentalismo. Caracterizava-se por três pilares inconfundíveis: cristais de vidro facetados que distorciam a luz como prismas, mostradores com cores vibrantes e gradientes psicadélicos (verdes esmeralda, roxos profundos, laranjas solares) e caixas com formas assimétricas e angulares que pareciam ter saído de um filme de ficção científica da época. Posicionado como um relógio de moda acessível, o seu público-alvo não eram profissionais ou aventureiros, mas sim jovens urbanos que viam o relógio como uma extensão da sua identidade e expressão pessoal. A sua importância para a relojoaria reside na sua audácia. O Advan é um testemunho da capacidade da Seiko de segmentar o mercado e inovar não apenas tecnicamente, mas também esteticamente, provando que um relógio de produção em massa poderia ser uma tela para o design artístico radical. Para os colecionadores de hoje, o Advan não é apenas um relógio vintage; é uma cápsula do tempo perfeitamente preservada da era mais 'funky' e experimental do design japonês.
HISTÓRIA
A linha Seiko Advan emergiu por volta de 1972, num Japão que fervilhava com crescimento económico e uma explosão cultural. A juventude do pós-guerra, agora adulta, procurava formas de expressão que rompessem com o tradicionalismo, e o design de produtos tornou-se um campo de batalha para a inovação. Foi neste cenário que a Seiko, mestre em ler as correntes do mercado, concebeu o Advan. Não foi uma evolução de um modelo de ferramenta, mas sim uma criação deliberada para o segmento de moda, uma resposta direta às estéticas psicadélicas, 'Space Age' e 'funky' que dominavam o mundo.
Tecnicamente, o Advan não procurava quebrar recordes de cronometria. Pelo contrário, apoiava-se nos fiáveis e robustos movimentos automáticos da série 6106 e, mais predominantemente, 7019. Estes calibres eram o motor perfeito: económicos de produzir e de manter, permitindo à Seiko alocar o orçamento para onde realmente importava nesta linha – o design exterior. O verdadeiro coração do Advan era a sua aparência. A coleção pode ser vista como um passo evolutivo das linhas Seiko 5 Sports e Actus, que já tinham introduzido mais cor e formas de caixa arrojadas no final dos anos 60. O Advan, no entanto, levou esta filosofia ao extremo.
A sua existência foi efémera, durando apenas cerca de quatro a cinco anos, até aproximadamente 1976. Por isso, não se fala em 'gerações' do Advan, mas sim numa proliferação explosiva de referências distintas durante este curto período. Cada referência era um novo experimento: caixas assimétricas que desafiavam a simetria, formatos 'TV screen' que evocavam a tecnologia da época, e ângulos agudos inspirados na arquitetura brutalista. O elemento unificador, a sua assinatura inconfundível, era o cristal facetado. Com até 9 ou 11 facetas em alguns modelos, transformava o ato de ver as horas numa experiência visual dinâmica, com a luz a refratar-se e a dançar sobre os mostradores coloridos.
Para os colecionadores, as variações mais procuradas são aquelas com as combinações mais extremas de forma e cor. Modelos com mostradores em tons de verde esmeralda ou roxo profundo, ou caixas particularmente assimétricas como a referência 7019-7270, atingem um estatuto de culto. A presença do logótipo 'Advan' com o seu sol estilizado de sete raios é também um detalhe apreciado. O impacto do Advan no legado da Seiko é profundo, embora subtil. Ele provou que a marca não era apenas uma fabricante de relógios-ferramenta fiáveis, mas também uma casa de design corajosa e versátil. Representa um momento de liberdade criativa pura, onde a estética triunfou sobre a função de uma forma deliberada e celebratória, solidificando a reputação da Seiko como uma força relojoeira capaz de ditar tendências e capturar o espírito de uma era.
CURIOSIDADES
O nome 'Advan' é uma contração das palavras inglesas 'Advance' e 'Avant-garde', refletindo diretamente a filosofia de design experimental e futurista da linha.
O cristal facetado era a estrela principal. Alguns modelos possuíam até 11 facetas distintas, criando um jogo de luz espetacular que distorcia e realçava o mostrador colorido. A produção destes cristais era notavelmente complexa para a época.
A linha Advan foi produzida quase exclusivamente para o Mercado Doméstico Japonês (JDM), tornando-a um item de coleção particularmente desejável fora do Japão, especialmente os exemplares com o calendário do dia em Kanji.
O logótipo Advan no mostrador tem variações, sendo a mais icónica aquela que apresenta um símbolo de sol estilizado com sete raios ao lado do texto, reforçando a sua estética vibrante.
Apesar da sua curta produção (c. 1972-1976), a Seiko lançou dezenas de referências Advan, criando um vasto e diversificado universo de combinações de caixas, mostradores e cristais para os colecionadores descobrirem.
O Advan pode ser visto como o primo 'funky' e acessível da mais luxuosa linha King Seiko 'Vanac' da mesma época, que também utilizava cristais facetados e designs arrojados, mas com movimentos e acabamentos de gama superior.
Ao contrário de muitos relógios icónicos, o Advan não tem associações conhecidas com celebridades ou figuras históricas. O seu legado foi construído nas ruas de Tóquio, usado por jovens anónimos, tornando-o um autêntico artefacto cultural da sua época.