RESUMO
Em 1986, no auge do domínio do quartzo, a Seiko abalou a Feira de Basileia ao apresentar um protótipo que prometia o melhor de dois mundos: a precisão do quartzo com a autonomia perpétua de um relógio automático. Conhecido internamente como 'Automatic Generating System' (AGM), este relógio não era um modelo de mergulho, de aviação ou de gala; era uma declaração tecnológica. O seu propósito era resolver o maior inconveniente do relógio a quartzo – a troca de bateria. A sua filosofia de design era a da transparência, frequentemente apresentando um fundo de caixa de exibição para revelar o micro-rotor e o sistema de geração, transformando a engenharia interna no seu principal atrativo estético. Direcionado ao consumidor tecnologicamente curioso e ambientalmente consciente, o protótipo AGM foi um golpe de génio. Ele não só previu a futura importância da sustentabilidade, mas também criou uma categoria de relógios inteiramente nova que viria a ser conhecida como 'Kinetic'. A sua importância histórica é imensa; foi a génese de uma das inovações mais duradouras da Seiko e uma prova de que a marca nunca deixou de desafiar as convenções da relojoaria, mesmo aquelas que ela própria tinha estabelecido.
HISTÓRIA
A história do protótipo Seiko AGM de 1986 é uma narrativa de inovação audaciosa num tempo de complacência tecnológica. Em meados da década de 1980, a revolução do quartzo, liderada pela própria Seiko, tinha redefinido a indústria relojoeira. A precisão e o baixo custo tornaram os relógios a quartzo omnipresentes, mas dependiam de uma falha fundamental: a bateria descartável. Este era um problema de conveniência e, cada vez mais, uma preocupação ambiental. Dentro dos laboratórios da Seiko, engenheiros foram incumbidos de um desafio que parecia paradoxal: criar um relógio de quartzo que nunca precisasse de uma troca de bateria. A solução não estava na energia solar, que já estava a ser explorada, mas em aproveitar a energia mais pessoal de todas – o movimento do próprio utilizador. O conceito era elegante e revolucionário: adaptar o princípio do rotor de um relógio automático, não para dar corda a uma mola principal, mas para alimentar um gerador em miniatura. Este projeto recebeu o nome de código 'AGM', ou 'Automatic Generating System'. Quando a Seiko revelou o primeiro protótipo funcional na Feira de Basileia de 1986, a reação foi de espanto. Num mar de designs de quartzo convencionais, o AGM era uma visão do futuro. O relógio em si era estilisticamente um produto do seu tempo, com uma caixa de aço e uma bracelete integrada que falava a linguagem de design dos anos 80. No entanto, o seu verdadeiro brilhantismo estava no interior, e a Seiko sabiamente tornou-o visível. O fundo da caixa de exibição não era um mero floreio estético; era uma ferramenta de marketing essencial. Mostrava o rotor a girar livremente, idêntico ao de um relógio mecânico, mas em vez de um balanço, a energia era canalizada para um complexo sistema de engrenagens que multiplicava a velocidade, fazendo o gerador girar a velocidades vertiginosas de até 100.000 rotações por minuto. Esta energia era então armazenada num capacitor, alimentando o circuito de quartzo por dias a fio. O protótipo de 1986 não foi um modelo de produção. Foi uma prova de conceito, o 'Mark I' de uma linhagem tecnológica. Dois anos depois, em 1988, a Seiko lançou o primeiro relógio comercial com esta tecnologia, ainda sob o nome 'A.G.S.'. No entanto, foi em 1991 que a tecnologia encontrou o seu nome icónico e duradouro: 'Kinetic'. O protótipo AGM é, portanto, o Adão de todos os relógios Kinetic que se seguiram, desde os modelos básicos aos cronógrafos e calendários perpétuos. O seu impacto foi profundo. Mostrou ao mundo que a inovação em relojoaria não se limitava a complicações mecânicas ou a designs de caixa. A Seiko demonstrou que a gestão de energia era a próxima fronteira. O AGM de 1986 não foi apenas um relógio; foi um manifesto, solidificando o legado da Seiko como uma força pioneira e incansável no avanço da horologia.
CURIOSIDADES
O nome 'AGM' (Automatic Generating System) era a designação técnica e interna do projeto; o nome mais apelativo 'Kinetic' só foi adotado em 1991 por razões de marketing global.
O sistema de engrenagens do gerador foi uma maravilha da microengenharia, projetado para multiplicar a velocidade do rotor a um nível espantoso, atingindo até 100.000 rpm – mais rápido que o motor de um carro de Fórmula 1.
Como um protótipo de feira, é extremamente raro. Acredita-se que apenas um punhado foi produzido para a apresentação, tornando qualquer exemplar sobrevivente uma peça de museu de valor inestimável, provavelmente alojada nos arquivos da Seiko.
A decisão de incluir um fundo de caixa de exibição foi uma jogada de mestre. Permitiu que o conceito abstrato de 'geração de energia' se tornasse uma demonstração visual e tangível, cativando instantaneamente o público.
Este protótipo de 1986 é o ancestral direto não apenas da linha Kinetic, mas também de desenvolvimentos posteriores como o Kinetic Auto Relay (que entra em hibernação para poupar energia) e o Kinetic Direct Drive (que permite ao utilizador dar corda manualmente para gerar energia).
Ao contrário dos relógios automáticos que armazenam energia mecânica numa mola, o AGM foi pioneiro no armazenamento de energia elétrica num capacitor, uma tecnologia mais associada à eletrónica do que à relojoaria tradicional.
O sucesso do conceito AGM inspirou toda a indústria a explorar fontes de energia alternativas, levando ao desenvolvimento de tecnologias concorrentes e solidificando a importância da sustentabilidade na relojoaria moderna.