RESUMO
Lançado no alvorecer do novo milénio, o Casio WMP-1, por vezes apelidado de 'Pogo', representa um dos momentos mais audaciosos e proféticos da história da relojoaria digital. Numa época dominada pela ascensão do formato MP3, mas antes da chegada do iPod que redefiniria o consumo de música, a Casio apresentou ao mundo o primeiro relógio de pulso com um leitor de MP3 totalmente integrado. Este não era um relógio para o tradicionalista; o seu público-alvo eram os 'early adopters', os entusiastas da tecnologia e os visionários que viam o pulso como o próximo bastião da computação pessoal. A sua filosofia de design era inequivocamente funcionalista e futurista, sacrificando a elegância clássica em prol de uma proeza tecnológica sem precedentes. O WMP-1 não era apenas um dispositivo para ver as horas; era uma declaração de intenções, um gadget que fundia a cronometragem com o entretenimento pessoal. A sua importância transcende o seu modesto sucesso comercial; ele é um artefacto crucial que demonstra a convergência iminente entre acessórios de moda e dispositivos de multimédia, servindo como um precursor conceitual direto para os smartwatches que hoje dominam o mercado. O WMP-1 é, em essência, a semente da qual germinou a revolução wearable.
HISTÓRIA
A história do Casio WMP-1 é menos sobre relojoaria tradicional e mais sobre a cronologia da inovação tecnológica no final do século XX. Lançado oficialmente em 2001, após uma primeira apresentação no final de 2000, o relógio chegou a um mundo em plena efervescência digital. O Napster tinha virado a indústria musical de cabeça para baixo e os leitores de MP3 portáteis, como os da Diamond Rio e Creative Labs, eram os gadgets do momento, embora ainda fossem dispositivos relativamente grandes e pouco práticos. Neste cenário, a Casio, uma marca com um legado de décadas a desafiar os limites do que um relógio de pulso poderia fazer – desde calculadoras a bancos de dados e controlos remotos – viu uma oportunidade de dar o próximo passo lógico: integrar a música diretamente no pulso.
O WMP-1 não teve predecessores diretos; foi uma criação 'ex nihilo', uma categoria de produto inteiramente nova. O seu desenvolvimento representou um desafio de engenharia formidável: miniaturizar um leitor de MP3, com a sua memória, processador de áudio, bateria e controlos, para caber num invólucro usável. O resultado foi um design que é um ícone da estética Y2K – volumoso, angular e descaradamente digital. A sua interface era controlada por um conjunto de botões proeminentes na frente da caixa, permitindo ao utilizador navegar pelas suas preciosas faixas musicais. A transferência de música era um processo que hoje parece arcaico, exigindo uma base de carregamento ('docking station') que se ligava a um computador via USB e utilizava o software proprietário 'PogoRip' para converter e carregar os ficheiros.
Na sua época, o WMP-1 foi recebido com um misto de admiração e ceticismo. A imprensa de tecnologia elogiou a sua visão e audácia, frequentemente comparando-o ao relógio comunicador de Dick Tracy e declarando-o como o futuro. No entanto, para o consumidor médio, as suas limitações eram evidentes. Os 32MB de armazenamento eram suficientes para apenas um punhado de canções, a autonomia da bateria era curta e o preço de lançamento, que rondava os 250 dólares, colocava-o na categoria de luxo tecnológico. O golpe de misericórdia viria em outubro de 2001, quando a Apple lançou o primeiro iPod, que, embora não fosse um relógio, oferecia um 'salto quântico' em capacidade de armazenamento e facilidade de uso, capturando instantaneamente o mercado.
Consequentemente, o WMP-1 nunca se tornou um sucesso de vendas e não teve sucessores diretos que seguissem o mesmo formato. No entanto, o seu impacto na indústria é inegável. Ele provou que o conceito de um centro de multimédia de pulso era viável, plantando uma semente que floresceria mais de uma década depois com a chegada dos smartwatches da Pebble, Samsung e, finalmente, da Apple. Para os colecionadores de hoje, o WMP-1 não é valorizado pela sua praticidade, mas pelo seu significado histórico. É um marco, um testemunho da inovação implacável da Casio e um lembrete de um futuro que chegou primeiro ao pulso, mesmo que o mundo ainda não estivesse totalmente preparado para ele.
CURIOSIDADES
O software que acompanhava o relógio chamava-se 'PogoRip', o que levou a que o próprio relógio fosse frequentemente apelidado de 'Casio Pogo' pela comunidade de entusiastas e imprensa especializada.
A sua capacidade de 32MB era uma proeza para a época, mas na prática significava que só conseguia armazenar entre 8 a 10 músicas com qualidade de 128kbps, o equivalente a um EP moderno.
O WMP-1 foi lançado no mesmo ano que o primeiro Apple iPod. Enquanto a Casio se focava na miniaturização extrema, a Apple focava-se na capacidade de armazenamento e interface, uma batalha que o iPod venceu decisivamente.
Apesar de não ter sido usado por celebridades famosas no cinema, o relógio foi uma estrela da imprensa de tecnologia do início dos anos 2000, aparecendo em revistas como 'Wired', 'Stuff' e 'T3' como um vislumbre do futuro da tecnologia pessoal.
O design incluía uma entrada de áudio padrão de 3.5mm diretamente na caixa do relógio, uma característica que hoje parece impensável num dispositivo de pulso resistente a salpicos.
Devido ao seu relativo fracasso comercial e produção limitada, encontrar um Casio WMP-1 hoje, especialmente em condição de funcionamento e com a sua base de carregamento original, é extremamente raro, tornando-o um 'santo graal' para colecionadores de relógios digitais e de tecnologia vintage.
O relógio foi pioneiro no uso de uma bateria de iões de lítio recarregável num relógio de pulso Casio, afastando-se das tradicionais baterias de célula tipo moeda para poder alimentar as exigentes funções de reprodução de áudio.