RESUMO
Muito antes de o mundo dos colecionadores ocidentais reconhecer a profundidade da relojoaria soviética, a Fábrica de Relógios de Petrodvorets, conhecida como Raketa, criou uma obra-prima de engenharia subaquática que permanece até hoje como um dos 'santos graais' da horologia do Bloco de Leste. O Raketa Amphibia de 1974, com a sua colossal classificação de 30 ATM, não era apenas um relógio; era uma declaração de capacidade técnica, um instrumento construído com um propósito singular que rivalizava com os seus homólogos suíços em pura robustez. Distinto em todos os aspetos do seu primo mais famoso, o Vostok Amphibia, este modelo representava uma filosofia de design alternativa. Enquanto Vostok optava por soluções de engenharia engenhosamente idiossincráticas, a Raketa abordou o desafio da pressão em alto mar com uma força bruta e uma construção maciça e intransigente. Destinado não ao público em geral, mas a mergulhadores profissionais, cientistas e talvez a unidades navais especializadas, o seu posicionamento era o de uma ferramenta de elite. A sua importância histórica reside na sua extrema raridade e no facto de desafiar a narrativa de que a Vostok detinha o monopólio dos relógios de mergulho soviéticos de alta performance. É uma peça que representa um beco sem saída evolutivo, um vislumbre de uma capacidade de produção que raramente era exibida, tornando cada exemplar sobrevivente um artefacto de uma era de ambição tecnológica da Guerra Fria.
HISTÓRIA
No panteão dos relógios de mergulho soviéticos, o Raketa Amphibia de 30 ATM de 1974 ocupa um lugar de mistério e reverência. A sua história não é de produção em massa, mas de uma ambição focada e de uma raridade quase mítica. Nascido no auge da Guerra Fria, num período em que a União Soviética procurava demonstrar autossuficiência e superioridade tecnológica em todas as áreas, desde a exploração espacial à oceanografia, este relógio foi a resposta da Fábrica de Petrodvorets ao desafio extremo do mergulho em grandes profundidades. Enquanto a fábrica de Chistopol, a Vostok, já tinha estabelecido o seu Amphibia como o relógio de mergulho padrão, o projeto da Raketa seguiu um caminho de engenharia distinto. Em vez de adotar o engenhoso, mas peculiar, sistema de fundo de caixa de duas peças e coroa 'oscilante' da Vostok, os engenheiros da Raketa optaram por uma abordagem mais tradicional, mas levada ao extremo. Construíram uma caixa monolítica em aço inoxidável, com uma espessura e massa que inspiravam confiança imediata. A coroa e o fundo da caixa eram do tipo rosqueado convencional, mas superdimensionados para garantir uma vedação hermética sob imensa pressão, uma filosofia de design que privilegiava a força bruta sobre a complexidade mecânica.
A sua existência foi confirmada de forma irrefutável pela sua aparição no catálogo oficial de produtos da Raketa de 1974. Esta única documentação oficial é a pedra angular da sua lenda, transformando o que poderiam ser apenas rumores de colecionadores numa realidade histórica tangível. A sua inclusão no catálogo sugere que não se tratava de um mero protótipo, mas de um modelo destinado, pelo menos inicialmente, a uma produção limitada ou a encomendas especiais. Acredita-se que o seu público-alvo não era o cidadão comum, mas sim agências governamentais, institutos de investigação marinha ou unidades de mergulhadores da marinha soviética que necessitavam de um instrumento capaz de suportar condições muito para além das dos relógios de mergulho padrão da época. O coração deste colosso era o fiável calibre Raketa 2609.??, um movimento de corda manual conhecido pela sua robustez e simplicidade, uma escolha lógica para uma ferramenta onde a fiabilidade era mais importante do que a conveniência de um rotor automático.
A sua produção parece ter sido extremamente breve. O relógio desapareceu dos catálogos subsequentes, levando a especulações sobre as razões do seu fim. As teorias mais plausíveis apontam para custos de produção proibitivos em comparação com o Vostok Amphibia, ou para o facto de o projeto ter sido uma demonstração de capacidade técnica em vez de um empreendimento comercial viável. Independentemente da razão, a sua curta vida útil resultou numa raridade extrema. Hoje, o Raketa Amphibia de 1974 é um dos relógios soviéticos mais procurados. Não existem gerações ou variações conhecidas; cada exemplar é um sobrevivente de uma única e enigmática tiragem de produção. O seu impacto no legado da Raketa é profundo, servindo como prova de que a marca era capaz de muito mais do que os seus elegantes relógios de vestir, posicionando-a, mesmo que por um breve momento, no auge da engenharia de relógios-ferramenta da era soviética.
CURIOSIDADES
Apelido do Colecionador: Devido à sua caixa maciça e origem na cidade de Raketa (então Leninegrado, hoje São Petersburgo), é por vezes apelidado de 'Monstro de Petrodvorets' ou 'Neva Diver' entre os entusiastas.
Mistério da Produção: O número exato de unidades fabricadas é desconhecido e objeto de intenso debate. As estimativas mais otimistas sugerem algumas centenas, mas muitos acreditam que o número real é inferior a 100, tornando-o mais raro do que muitos relógios de luxo suíços.
O Fundo da Caixa Único: Ao contrário dos fundos de caixa genéricos da época, os exemplares conhecidos apresentam uma gravura profunda e detalhada de um mergulhador em estilo 'vintage' ou, em variantes ainda mais raras, um golfinho, indicando uma atenção especial ao detalhe.
O Mito do 'Assassino do Vostok': Uma teoria popular entre os colecionadores é que o relógio foi desenvolvido como um projeto interno para superar o Vostok Amphibia em todas as especificações, mas foi cancelado por razões políticas ou económicas antes de poder entrar em competição direta.
Lume Radioativo: O material luminescente original era um composto de trítio de alta potência. Exemplares que não tiveram o mostrador ou os ponteiros substituídos exibem frequentemente uma pátina distinta e um brilho fantasmagórico sob luz UV, um sinal cobiçado de originalidade.
Ausência de Versões de Exportação: Nunca foi encontrada uma versão de exportação com a marca 'Sekonda' (comum noutros Raketas para o mercado britânico), o que reforça a teoria de que foi um modelo exclusivamente para uso doméstico e especializado na URSS.
Anomalia do Catálogo: A sua presença solitária no catálogo de 1974, sem menção anterior ou posterior, é uma anomalia que alimenta a sua mística, sugerindo que a sua aprovação para produção foi abruptamente revertida.