RESUMO
O Seiko Ruputer, especificamente na sua versão PRO de 1998, representa um dos capítulos mais audaciosos e proféticos da história da horologia e da tecnologia de consumo. Lançado numa era dominada pelos emergentes PDAs como o Palm Pilot, o Ruputer não era meramente um relógio digital avançado; era uma tentativa genuína de miniaturizar um computador pessoal completo para o pulso. O seu público-alvo não eram os tradicionais colecionadores de relógios, mas sim os entusiastas de tecnologia, os 'early adopters' e profissionais que sonhavam com acesso a dados em qualquer lugar. A sua filosofia de design era brutalmente funcional, priorizando a engenharia eletrónica sobre a estética relojoeira tradicional. A caixa volumosa, o ecrã de matriz de pontos e o proeminente joystick frontal gritavam 'ferramenta tecnológica' em vez de 'acessório de moda'. A sua importância histórica é imensa e inversamente proporcional ao seu sucesso comercial. O Ruputer foi um pioneiro conceptual, o primeiro dispositivo de pulso a oferecer um sistema operativo, memória substancial e a capacidade de descarregar e executar aplicações de terceiros. Ele validou a ideia de um 'smartwatch' mais de uma década antes do termo se tornar comum, estabelecendo um precedente para a convergência entre a cronometragem e a computação pessoal que define a indústria de wearables de hoje.
HISTÓRIA
No final da década de 1990, o mundo da tecnologia estava em plena efervescência. A internet começava a massificar-se e os assistentes pessoais digitais (PDAs) prometiam libertar os profissionais das suas secretárias. Foi neste caldeirão de inovação que a Seiko, uma marca sinónimo de pioneirismo tecnológico desde a introdução do primeiro relógio de quartzo, o Astron, decidiu dar o passo mais lógico e ambicioso da sua história: criar um verdadeiro computador de pulso. O Seiko Ruputer, lançado no Japão em 1998, foi o culminar de décadas de experimentação da marca com relógios 'inteligentes', como o Data 2000 e o UC-2000 dos anos 80, que, no entanto, dependiam de periféricos externos, como teclados, para uma funcionalidade completa. O Ruputer, pelo contrário, era uma unidade autónoma e programável. Era um dispositivo que não apenas mostrava dados, mas que os podia criar, processar e partilhar.
O lançamento incluiu duas variantes principais: o modelo standard e o Ruputer PRO (Ref. M151-X001). A versão PRO, objeto desta análise, era a mais cobiçada, oferecendo o dobro da memória de armazenamento (2 MB contra 512 KB do modelo standard) e uma construção mais robusta, com uma bracelete de aço integrada que lhe conferia um aspeto mais sério e profissional. O coração do relógio era um processador de 16-bit, uma proeza de miniaturização para a época, que corria um sistema operativo proprietário. A sua interface de utilizador, controlada por um engenhoso, embora algo impreciso, joystick, permitia navegar por aplicações que iam desde a gestão de contactos e calendários a simples jogos. A sua característica mais revolucionária era a capacidade de expansão: os utilizadores podiam programar as suas próprias aplicações em linguagem C e transferi-las para o relógio através de um cabo serial ligado a um PC ou, de forma mais futurista, via a sua porta de infravermelhos (IrDA).
Contudo, o Ruputer era uma visão demasiado avançada para o seu tempo. O seu sucesso foi severamente limitado por barreiras tecnológicas e de usabilidade. O preço de lançamento era elevado, a duração da bateria era curta para um relógio, e o ecrã monocromático de baixa resolução, juntamente com o joystick, tornava a introdução de dados uma tarefa laboriosa. Competia desfavoravelmente com os PDAs da época, que ofereciam ecrãs maiores, interfaces de caneta stylus mais intuitivas e ecossistemas de software mais maduros. Em 2001, a tecnologia foi licenciada à empresa americana Matsucom, que o relançou como 'onHand PC', mas o destino já estava traçado. Apesar do seu fracasso comercial, o impacto do Ruputer na indústria é inegável. Ele foi um mártir da causa 'smartwatch', um artefacto tecnológico que demonstrou, com uma década e meia de antecedência, o potencial e os desafios de colocar a computação no pulso. Para os colecionadores de hoje, o Seiko Ruputer PRO não é apenas um relógio; é um pedaço tangível da história da computação, um monumento à ousadia da Seiko e um lembrete de que, por vezes, ser o primeiro é mais importante do que ser o mais bem-sucedido.
CURIOSIDADES
O nome 'Ruputer' é um portmanteau das palavras em inglês 'wrist' (pulso) e 'computer' (computador).
Em 1998, o Guinness World Records reconheceu oficialmente o Seiko Ruputer como o 'menor computador do mundo'.
Apesar de ser um produto Seiko, foi também vendido na América do Norte sob a marca Matsucom com o nome 'onHand PC', apresentando pequenas alterações de software e design.
O sistema operativo do Ruputer era o W-PS-DOS, e os entusiastas podiam programar as suas próprias aplicações usando um kit de desenvolvimento de software (SDK) e a linguagem de programação C.
O joystick de 8 direções foi uma solução de input inovadora para um dispositivo tão pequeno, antecipando os métodos de controlo que se tornariam comuns em futuros dispositivos móveis.
A comunicação via infravermelhos (IrDA) permitia que dois Ruputers trocassem dados, como contactos ou ficheiros, ou até mesmo jogassem jogos em modo de dois jogadores, um conceito primitivo de conectividade social em wearables.