RESUMO
Numa era definida pela ascensão da eletrónica de consumo, o Casio Remote Controller CMD-40, lançado em 1993, não era apenas um relógio; era um portal para o controlo e, por vezes, para o caos benigno. Posicionado de forma brilhante no cruzamento entre a horologia digital acessível e o gadget de tecnologia de ponta, o seu público-alvo não eram os colecionadores de relógios tradicionais, mas sim os tecnófilos, os jovens e qualquer pessoa cativada pela promessa de um futuro de ficção científica no pulso. A sua filosofia de design era de pura função sobre a forma, com uma caixa de resina assimétrica e um teclado numérico que gritava utilidade, mas que, paradoxalmente, se tornou um ícone de estilo da sua época. A importância do CMD-40 para a horologia reside na sua audácia. Foi um dos primeiros relógios a integrar com sucesso uma função não-horológica complexa que interagia diretamente com o ambiente do utilizador, transformando o portador de um observador passivo do tempo num participante ativo no seu domínio tecnológico. Ao permitir que se controlassem televisores, leitores de vídeo e sistemas de cabo, o CMD-40 transcendeu a sua função primária, tornando-se uma ferramenta de poder social e um símbolo de astúcia tecnológica. Representa um capítulo crucial na evolução para o smartwatch moderno, provando que um relógio podia ser divertido, disruptivo e eminentemente prático, muito para além de apenas marcar as horas.
HISTÓRIA
A história do Casio CMD-40 é um reflexo perfeito do zeitgeist tecnológico do início dos anos 90. Numa época anterior à internet nos nossos bolsos, a inovação em eletrónica pessoal era medida por feitos tangíveis e muitas vezes lúdicos. A Casio, já uma mestra indiscutível no domínio dos relógios com calculadora e 'databank', procurava constantemente o próximo 'killer feature' para capturar a imaginação do público. A proliferação de televisores e leitores de videocassete em todas as casas, cada um com o seu próprio controlo remoto propenso a perder-se, apresentou a oportunidade perfeita. O palco estava montado para um dispositivo que centralizasse o controlo e o colocasse permanentemente no pulso do utilizador. Lançado em 1993, o CMD-40 não foi o primeiro relógio com controlo remoto da Casio — foi precedido por modelos como o CMD-10 —, mas foi o que aperfeiçoou a fórmula, combinando um design mais refinado, uma funcionalidade mais ampla e um marketing que o transformou num fenómeno cultural. A sua chegada foi recebida com fascínio. Para uma geração de jovens, era o gadget supremo. A capacidade de mudar o canal da televisão na sala de aula durante a exibição de um documentário ou de desligar discretamente os televisores numa loja de eletrodomésticos transformou o relógio de um simples acessório num instrumento de poder e travessura. Esta dimensão social foi fundamental para o seu sucesso; possuir um CMD-40 era possuir uma chave secreta para o mundo eletrónico que o rodeava. O design do relógio era inconfundivelmente Casio. A caixa de resina preta, angular e assimétrica, foi projetada em torno da sua funcionalidade. O ecrã LCD na metade superior exibia as informações de tempo e modo, enquanto a metade inferior era dominada por um teclado de borracha. Acima do ecrã, dois díodos emissores de infravermelhos (LEDs) garantiam um ângulo de transmissão mais amplo e eficaz do que muitos controlos remotos convencionais. O funcionamento era um ritual da tecnologia dos anos 90: o utilizador entrava no modo de controlo remoto, selecionava o tipo de dispositivo (TV ou VCR) e depois introduzia um código de dois dígitos correspondente à marca do aparelho. Era um sistema simples mas robusto que cobria a maioria dos grandes fabricantes da época. O sucesso do CMD-40 solidificou a reputação da Casio como uma inovadora destemida e gerou variações, como o CMD-50, que apresentava uma caixa de metal para um toque mais 'premium'. No entanto, o CMD-40 de resina preta continua a ser o mais icónico. Com o tempo, a sua relevância prática diminuiu. A tecnologia de infravermelhos foi suplantada, os VCRs tornaram-se obsoletos e os smartphones acabaram por absorver a função de controlo universal. No entanto, o seu legado perdura. O CMD-40 é hoje um objeto de culto cobiçado por colecionadores de relógios digitais e entusiastas da tecnologia retro. Mais do que um relógio, é uma cápsula do tempo, um testemunho de uma era em que a tecnologia no pulso era sobre diversão, surpresa e um toque de anarquia digital.
CURIOSIDADES
Apelido na Comunidade: Conhecido afetuosamente como 'Comando de Pulso' ou, em inglês, 'Couch Commando', um testemunho da sua função principal de controlar o entretenimento a partir do sofá.
O Mestre das Travessuras: Tornou-se uma ferramenta lendária para partidas em escolas e espaços públicos, permitindo aos utilizadores mudar canais ou desligar televisores e VCRs sem serem detetados, cimentando o seu estatuto de ícone cultural juvenil.
Vantagem Técnica: Ao contrário de muitos controlos remotos da época que usavam um único emissor de infravermelhos, o CMD-40 utilizava dois LEDs IR, proporcionando um feixe mais amplo e forte que aumentava significativamente a sua eficácia e alcance.
Herança da Calculadora: Para além da sua função de controlo remoto, o relógio incluía uma calculadora de 8 dígitos totalmente funcional, mantendo a linhagem dos famosos relógios-calculadora da Casio e tornando-o um verdadeiro 'canivete suíço' digital.
Precursor do Smartwatch: Muitos historiadores da tecnologia consideram o CMD-40 e a sua linhagem como precursores espirituais diretos dos smartwatches modernos, demonstrando a viabilidade e o desejo do consumidor por funcionalidades que iam muito além da simples cronometragem.
Evolução da Espécie: O sucesso do CMD-40 levou a Casio a desenvolver modelos mais avançados que incluíam uma função de 'aprendizagem' (learning feature), capazes de capturar e replicar o sinal de qualquer controlo remoto por infravermelhos.
Objeto de Culto: Hoje em dia, encontrar um CMD-40 em pleno funcionamento e bom estado de conservação é um desafio. Tornou-se um item de coleção muito procurado, com exemplares 'New Old Stock' (NOS) a atingirem preços significativos em leilões online.