RESUMO
O Aquastar Deepstar Chronograph, notabilizado em 1965 durante o projeto Précontinent III (Conshelf III) liderado por Jacques-Yves Cousteau, representa um marco singular na história da relojoaria subaquática. Concebido por Frédéric Robert, fundador da Aquastar e ex-mergulhador, o Deepstar não era apenas um relógio esportivo, mas um instrumento crítico de sobrevivência desenhado para oceanautas. Equipado com o reverenciado calibre cronógrafo de corda manual Valjoux 92, que opera a uma frequência tradicional de 18.000 alternâncias por hora (2,5 Hz) e emprega um confiável sistema de roda de colunas, o instrumento entregava precisão absoluta sob as severas condições de pressão oceânica. O diferencial visual mais contundente deste modelo repousa no seu mostrador fortemente assimétrico: apresenta um submostrador superdimensionado na posição das 3 horas focado na contagem de minutos do cronógrafo, contraposto por um inovador indicador mecânico de marcha às 9 horas. Este último era vital para que os mergulhadores confirmassem o funcionamento contínuo do relógio na escuridão abissal. A suprema inovação técnica do relógio, contudo, é o seu bisel de descompressão patenteado. Esta luneta giratória bidirecional incorporava escalas logarítmicas que permitiam o cálculo de tempos de descompressão para mergulhos sucessivos, atuando na prática como o primeiro computador de mergulho analógico de pulso. A convergência entre design utilitário rigoroso e a chancela histórica da equipe de Cousteau consagra o Deepstar como um dos cronógrafos de mergulho mais importantes já manufaturados.
HISTÓRIA
A gênese do Aquastar Deepstar Chronograph está intrinsecamente ligada à era de ouro da exploração submarina autônoma (SCUBA). A marca Aquastar foi fundada em 1962, em Genebra, por Frédéric Robert, um relojoeiro, marinheiro e pioneiro do mergulho, a partir da aquisição e reestruturação da JeanRichard. Diferente de outras manufaturas que adaptavam relógios tradicionais para uso na água, Robert concebeu a Aquastar com um foco singular: a criação de instrumentos profissionais exclusivos para navegação e sobrevivência abissal.
No início da década de 1960, a gestão estrita do tempo de imersão era a principal defesa do mergulhador contra a letal doença descompressiva (DCS). Embora o mercado já oferecesse relógios de mergulho robustos, estes forneciam apenas o tempo decorrido, exigindo que o mergulhador consultasse pesadas tabelas de descompressão (frequentemente as da Marinha Nacional Francesa) para calcular paradas obrigatórias, um processo manual propenso a erros em alto-mar. Para preencher esta lacuna técnica, a Aquastar desenvolveu e patenteou um bisel rotativo com dupla escala matemática. Integrado ao Deepstar, este bisel permitia computar o tempo residual de nitrogênio no organismo e planejar mergulhos sucessivos de forma autônoma. Nascia o que os historiadores horológicos classificam como o primeiro 'computador de mergulho analógico' de pulso.
O projeto visual do Deepstar inaugurou uma estética radicalmente utilitária ditada pela função. Compreendendo que a prioridade cognitiva sob a água é a contagem rápida dos minutos do mergulho (e não o acúmulo de horas), Robert desenhou um mostrador altamente assimétrico, dominado por um submostrador de dimensões agigantadas às 3 horas. Às 9 horas, substituiu o tradicional ponteiro de pequenos segundos por um indicador de marcha contínua — um pequeno disco giratório recortado em formato de losango ou estrela. O propósito era puramente de segurança: ao piscar sob o reflexo da luz, atestava instantaneamente que o maquinário mecânico estava operando.
Para propulsionar esta ferramenta, a primeira e mais reverenciada iteração do modelo foi equipada com o calibre Valjoux 92. Tratava-se de um movimento de cronógrafo a corda manual de construção formidável, utilizando uma clássica roda de colunas e um mecanismo de pinhão oscilante (baseado na patente de Edouard Heuer de 1887), pulsando a uma frequência estável de 18.000 vph. A arquitetura compacta e resiliente do Valjoux 92 suportava excepcionalmente bem as flutuações térmicas extremas e as forças de compressão oceânica. Embora o Deepstar tenha utilizado outros calibres em iterações subsequentes (como o Valjoux 23 e o 7730), as versões impulsionadas pelo Valjoux 92 definem o apogeu técnico da linhagem original.
A consagração histórica definitiva do Aquastar Deepstar operou-se no outono de 1965, durante a ousada missão Précontinent III (Conshelf III), liderada pelo Comandante Jacques-Yves Cousteau. Durante o experimento, seis oceanautas habitaram um domo pressurizado ancorado a 100 metros de profundidade, na costa de Cap Ferrat, durante três semanas ininterruptas, realizando trabalhos pesados no leito oceânico. Fotografias documentais de arquivo e registros cinematográficos provam de forma irrefutável que o Deepstar era o cronógrafo afivelado aos pulsos da tripulação, sobre os pesados trajes de neoprene. Mais do que um endosso comercial, a sua presença confirmou a eficácia do calibre Valjoux 92 e do bisel de cálculo num ambiente de risco absoluto.
Apesar da marca ter declinado vertiginosamente durante a crise do quartzo nos anos subsequentes, o Deepstar Valjoux 92 manteve seu status entre historiadores e colecionadores sérios. Ele permanece não apenas como um relógio de mergulho superlativo, mas como o paradigma de um design industrial no qual cada especificação mecânica e geométrica foi forjada pela dura necessidade da exploração humana em ambientes hostis.
CURIOSIDADES
1. A engenhosa patente do bisel rotativo de descompressão (Patente Suíça nº 325.954) dispensava o uso contínuo das tabelas físicas da Marinha Francesa, transferindo o cálculo de saturação de nitrogênio diretamente para o pulso do mergulhador.
2. O calibre Valjoux 92 destaca-se em sua época pela utilização do pinhão oscilante, um componente minimalista de acoplamento vertical que substituía engrenagens complexas da embreagem horizontal tradicional, reduzindo o desgaste e facilitando a manutenção da precisão no acionamento do cronógrafo.
3. Diferente dos robustos patrocínios modernos, os relógios Aquastar utilizados na missão Conshelf III não foram uma jogada de marketing pré-fabricada; a equipe de Cousteau adquiria os instrumentos na loja Spirotechnique (empresa co-fundada pelo próprio Cousteau) por sua irrefutável superioridade técnica.
4. O disco giratório das 9 horas, frequentemente chamado pelos colecionadores de 'hélice' ou 'stardust', não servia para marcar tempo preciso em segundos, mas operava como um rudimentar 'indicador de vida', essencial para conferir a integridade do movimento sob o estresse dos 100 metros de profundidade.
5. O mostrador do Deepstar omitiu deliberadamente a escala taquimétrica — tão popular nos cronógrafos dos anos 60 focados no automobilismo — dedicando todo o espaço periférico à legibilidade luminosa necessária nas cavernas submarinas.
6. Encontrar um exemplar do Aquastar Deepstar original da década de 1960 com o maquinário Valjoux 92 intacto, mostrador não repintado e o bisel numérico plenamente legível é considerado um dos maiores 'Santo Graal' do colecionismo de 'tool watches' (relógios-ferramenta), dada a altíssima taxa de corrosão à qual essas peças de trabalho foram submetidas em campo.