RESUMO
O Aquastar 63, introduzido no início da década de 1960 (com a base do modelo firmada por volta de 1962), representa um marco histórico na engenharia de relógios de mergulho devido ao seu inovador mecanismo de bisel rotativo interno operado por uma única coroa. A variante específica que ostenta o logótipo da 'Scubapro' no mostrador é amplamente considerada pelos historiadores da relojoaria como uma das mais significativas colaborações entre relojoeiros suíços e fabricantes de equipamentos profissionais de exploração submarina. A Scubapro, fundada em 1963, rapidamente se estabeleceu como a marca de referência em equipamentos SCUBA e, necessitando de um instrumento de cronometragem infalível para os seus catálogos profissionais, optou por estabelecer uma parceria com a Aquastar. Alojado numa robusta caixa de aço inoxidável com aproximadamente 37,5 milímetros de diâmetro (uma dimensão taticamente sobredimensionada para a época a fim de favorecer a legibilidade), o modelo é movido pelo fiável calibre automático A. Schild (AS) 1713. A genialidade da peça reside na patente da coroa multifuncional: o mesmo componente utilizado para dar corda e ajustar as horas era também responsável por rotacionar o anel de tempo de mergulho. Este design anulou a necessidade de uma segunda coroa (como era o caso das conhecidas caixas Super Compressor da EPSA), reduzindo assim os pontos de potencial entrada de água e eliminando a possibilidade de movimentos acidentais do bisel causados por impactos físicos debaixo de água. Hoje, o Aquastar 63 Scubapro é reverenciado não apenas como um genuíno 'tool watch', mas como um artefato crucial da era dourada do mergulho profissional e recreativo.
HISTÓRIA
A marca Aquastar foi idealizada e consolidada no início da década de 1960 em Genebra, frequentemente sob a orientação visionária de Frédéric Robert, um apaixonado pelo mergulho e inventor incansável que viria mais tarde a influenciar o departamento de relógios marítimos da Omega. O objetivo primário e absoluto da marca era a conceção de instrumentos profissionais de medição para ambientes náuticos e de mergulho (SCUBA), ignorando as correntes da moda civil. O lançamento do modelo '63' (a designação faz menção ao ano modelo de 1963, embora os primeiros protótipos e patentes circulassem em 1962) chocou a indústria da relojoaria graças à sua caixa singular. Durante esta era, as caixas com bisel interno estavam amplamente dominadas pelo princípio 'Super Compressor' desenvolvido pela Ervin Piquerez S.A. (EPSA), que invariavelmente exigia a presença de duas coroas (uma dedicada exclusivamente ao bisel rotativo e outra aos ponteiros). A patente horológica revolucionária da Aquastar integrou o controlo do bisel num sistema de embraiagem na própria engrenagem da coroa única.
O contexto desta colaboração atinge proporções históricas devido ao envolvimento da Scubapro. Gustav Dalla Valle e Dick Bonin fundaram a Scubapro em 1963 com a premissa de fornecer 'equipamento feito por mergulhadores profissionais, para mergulhadores profissionais'. No catálogo de lançamento da empresa norte-americana, era imperativo incluir um instrumento de controlo de tempo para cálculo de descompressão, dada a rudimentaridade das tabelas de mergulho da época que exigiam controlo cronométrico exato. Reconhecendo as propriedades estanques e a fiabilidade do modelo 63, a Scubapro celebrou um acordo com a Aquastar. A Scubapro encomendou os relógios e adicionou o seu agora icónico logótipo da letra 'S' estilizada ao mostrador, criando assim um dos mais antigos e autênticos arranjos de co-branding em ferramentas subaquáticas, um precursor do que a COMEX faria mais tarde com a Rolex no final da década.
Mecanicamente, a Aquastar selecionou o calibre automático AS 1713 fornecido pela renomada manufactura de ebauches A. Schild de Grenchen. Funcionando a uma frequência lenta e constante de 18.000 vph (3 Hz não era ainda norma generalizada na categoria), o movimento focava-se na durabilidade a longo prazo sob stress constante em vez da precisão laboratorial, o que o tornava num verdadeiro 'trator' mecânico.
Sobreviver à rudeza salina e à despressurização ao longo de décadas destruiu grande parte dos exemplares operacionais. Atualmente, os historiadores encaram os mostradores co-branded do modelo 63 como os 'Holy Grails' da linha Aquastar. O modelo reflete a pureza de uma era onde a relojoaria mecânica e a sobrevivência desportiva se fundiam numa única entidade de aço.
CURIOSIDADES
1. O inovador sistema do bisel interno rotativo da Aquastar operava por atrito mecânico acionado diretamente ao girar a coroa em posição de repouso, eliminando furos adicionais na caixa que seriam pontos críticos para falhas nos O-rings.
2. A Scubapro recusou-se veementemente a vender a edição co-branded em joalharias tradicionais; este relógio só poderia ser adquirido em centros e lojas de mergulho certificados, enfatizando a sua natureza estrita de equipamento salva-vidas.
3. O calibre AS 1713, que operava a uns conservadores e fiáveis 18.000 vph, fez parte da mesma família de ébauches testados militarmente e também aplicados em algumas iterações contemporâneas de outros grandes relógios de mergulho dos anos 50 e 60, sublinhando a robustez do design A. Schild.
4. Ao contrário de modelos de mergulho modernos de alta frequência (como os 36.000 vph do Zenith El Primero, lançado muito depois, em 1969), as frequências baixas do Aquastar 63 prolongavam os intervalos de lubrificação mecânica, ideal para profissionais em longas expedições em locais remotos.
5. O logótipo em forma de estrela da Aquastar pretendia evocar os conceitos de astronomia e navegação pelas estrelas a partir do mar, conectando filosoficamente os oceanos e o cosmos.
6. Com o desgaste ao longo do tempo, muitos Aquastar 63 Scubapro desenvolveram patines nos mostradores que variavam do cor-de-café ('tropicalização') à completa perda de tinta, isto derivado da vulnerabilidade específica da junta de acrílico perante microinfiltrações em águas ácidas ou altamente salinas se não mantida devidamente.
7. A colaboração foi tão marcante que se tornou um case-study de marketing especializado: provou que um instrumento mecânico ganhava mais prestígio profissional se chancelado por fabricantes de equipamento de sobrevivência do que através de publicidade tradicional elitista.