RESUMO
O Aquastar Glasstar, introduzido por volta de 1975, representa um dos capítulos mais excêntricos e inovadores na história dos relógios de mergulho (tool watches). Numa era caracterizada pela busca por novos materiais e pela iminência da Crise do Quartzo, a Aquastar — uma marca suíça renomada por desenvolver instrumentos marítimos puristas — ousou substituir o tradicional aço inoxidável por um composto de polímero reforçado com fibra de vidro (fiberglass). O resultado foi um relógio de mergulho com uma imponente caixa assimétrica de 45 mm que, paradoxalmente, era quase imperceptível no pulso devido à sua extrema leveza. Este material sintético não apenas resolvia o problema crônico da corrosão galvânica e da ação da água salgada, como também proporcionava neutralidade térmica, evitando que o relógio se tornasse excessivamente frio durante mergulhos profundos.
A lenda de que o Glasstar 'flutua na água' tornou-se parte intrínseca do seu mito. Embora a caixa vazia possua, de fato, flutuabilidade positiva, o peso do movimento mecânico suíço alojado em seu interior (geralmente um robusto calibre A. Schild automático) exige condições específicas para que o conjunto completo flutue, mas a sua densidade na água é notavelmente menor do que a de qualquer concorrente de aço. Equipado com um mostrador de alta visibilidade dominado pelo trítio, um bisel rotativo unidirecional robusto e um ponteiro de minutos de proporções exageradas para facilitar a leitura do tempo de imersão, o Glasstar era uma máquina puramente funcional. Hoje, devido à fragilidade inerente dos compostos plásticos antigos ao longo das décadas, encontrar um exemplar em condições intactas é um desafio formidável, elevando o Glasstar ao status de relógio de culto entre os colecionadores de horologia de mergulho vintage.
HISTÓRIA
A história do Aquastar Glasstar não pode ser compreendida sem antes analisar a linhagem de inovações da marca que o concebeu. Fundada em 1962 em Genebra por Jean Richard, mas fortemente impulsionada pela visão de Frédéric Robert, a Aquastar nasceu com um propósito singular: criar relógios e instrumentos profissionais exclusivamente para o meio aquático. Ao contrário de outras marcas que viam os relógios de mergulho como um nicho lucrativo para o mercado de lazer, a Aquastar focava-se no desenvolvimento de patentes rigorosas para profissionais, resultando em ícones como o Benthos 500 e o Deepstar. No entanto, em meados da década de 1970, a indústria relojoeira suíça enfrentava convulsões tecnológicas profundas. O aço inoxidável reinava supremo na construção de caixas, mas pesquisadores começavam a explorar os plásticos e compostos sintéticos em busca de redução de custos e propriedades antimagnéticas e anticorrosivas.
Foi neste contexto que, em 1975, a Aquastar introduziu o Glasstar. O nome, um amálgama de 'Glass' (da fibra de vidro, ou fiberglass) e 'Star' (a nomenclatura tradicional da marca), delineava exatamente o que o relógio oferecia. A caixa de 45 mm, com um design levemente assimétrico para proteger a coroa, foi inteiramente moldada a partir de um polímero especial reforçado com fibra de vidro. O objetivo técnico era audacioso: eliminar o risco de corrosão em ambientes marinhos altamente salinos, reduzir o peso do equipamento no pulso de um mergulhador saturado de engrenagens e evitar o desconforto térmico provocado pelos metais que esfriam rapidamente em grandes profundidades.
No aspecto mecânico, a Aquastar optou por não sacrificar a fiabilidade, equipando o Glasstar com ebauches suíços automáticos provados e testados, predominantemente fornecidos pela A. Schild (AS). Com uma frequência de 21.600 vibrações por hora (3 Hz), esses movimentos garantiam precisão sob estresse, enquanto a ausência de complicações supérfluas (além de uma janela de data em algumas versões) reforçava o seu caráter de ferramenta de trabalho. O mostrador seguia a filosofia de legibilidade extrema adotada por Frédéric Robert: fundos em preto fosco para alto contraste, aplicações massivas de tinta luminosa à base de trítio e, crucialmente, uma hierarquia visual nos ponteiros. O ponteiro dos minutos, responsável pela monitorização do tempo de mergulho através do bisel rotativo sintético, era frequentemente pintado de um tom laranja brilhante e possuía uma superfície luminosa vasta, rebaixando o ponteiro das horas a uma importância secundária, uma vez que mergulhos padrão não excediam uma hora.
Contudo, o experimento material do Glasstar provou ser uma faca de dois gumes. Se por um lado a leveza extraordinária promovia lendas urbanas sobre a sua capacidade de flutuar livremente nas águas, por outro, a fibra de vidro da década de 1970 possuía limitações estruturais em longo prazo. As variações de temperatura extremas, a exposição contínua ao sol (radiação UV) e a água salgada frequentemente causavam o ressecamento do polímero. Muitas caixas sofreram rachaduras, especialmente nos pontos de tensão como as garras (lugs) onde as hastes da pulseira eram fixadas, e a rosca interna da tampa do fundo perdia a sua integridade ao longo dos anos.
Essa vulnerabilidade natural dos materiais é precisamente o que torna o Glasstar de 1975 uma verdadeira anomalia e um tesouro no mercado contemporâneo. Sobreviventes em condição intocada (Mint Condition) são incrivelmente raros. O Glasstar cimentou o seu lugar na história como um audacioso e revolucionário exercício de engenharia dos anos 70, pavimentando o caminho para o uso de materiais compostos de alta tecnologia (como as modernas cerâmicas, carbono forjado e ligas de polímeros) que hoje são comuns na alta relojoaria desportiva.
CURIOSIDADES
A caixa e o bisel do Glasstar eram tão leves que o relógio gerou o mito duradouro de que flutuava; na prática, enquanto os componentes sintéticos flutuam, o conjunto completo (com movimento e vidro) tem flutuabilidade próxima de neutra e requer uma pulseira muito específica para não afundar.
O uso do policarbonato reforçado com fibra de vidro pela Aquastar antecipou, em muitos anos, a aceitação em massa dos relógios com caixas plásticas que salvariam a indústria suíça durante a década de 1980.
O design do mostrador priorizava quase que inteiramente o ponteiro dos minutos, que era exageradamente maior e brilhante que o ponteiro das horas, uma funcionalidade pensada exclusivamente para calcular o oxigênio restante do mergulhador.
Devido à degradação natural e à fragilidade térmica da resina epóxi/fibra de vidro usada nos anos 70, a maioria dos Glasstars originais hoje apresenta microfissuras, tornando exemplares perfeitos peças extremamente raras de museu.
Apesar de ser focado na inovação material, o Glasstar não abriu mão da horologia clássica em seu interior, utilizando fiáveis movimentos mecânicos A. Schild de 21.600 vph ao invés de aderir precocemente à revolução do quartzo.
O bisel foi projetado para ser manuseado com grossas luvas de neoprene, resultando em bordas dentadas exageradamente pronunciadas que se tornaram uma de suas assinaturas estéticas.
A Aquastar operava em nichos tão específicos que o Glasstar raramente era encontrado em joalherias convencionais; era vendido quase exclusivamente em lojas de equipamentos profissionais de mergulho (Dive Shops).