RESUMO
O Yema Meangraf Super, datado de cerca de 1970, representa um dos capítulos mais fascinantes da relojoaria francesa do século XX, fundindo a robustez da engenharia mecânica suíça com a estética arrojada da era "Space Age". Produzido pela Yema, outrora a maior exportadora de relógios da França, este cronógrafo reflete o espírito de uma época dominada pela corrida espacial e pela popularização massiva do desporto automóvel. A caixa em formato tonneau (barril) em metal cromado afasta-se das linhas tradicionais com asas proeminentes, oferecendo uma presença no pulso que é simultaneamente robusta e fluidamente aerodinâmica. No coração desta peça encontra-se o respeitado calibre Valjoux 7734, um movimento de cronógrafo de corda manual com sistema de cames, equipado com proteção contra choques Incabloc e uma prática complicação de data às 6 horas. O mostrador preto, contrastado com marcadores de horas brancos proeminentes e um layout de duplo registo (bi-compax), foi concebido sob estritos princípios ergonómicos para maximizar a legibilidade em frações de segundo sob condições adversas. Além disso, a inclusão de um bisel interno para medição de tempo decorrido confere-lhe uma utilidade tática e desportiva essencial. Hoje, o Meangraf Super transcendeu a sua origem de relógio-ferramenta comercialmente acessível para se consolidar como uma peça de leilão documentada e amplamente cobiçada por colecionadores de peças vintage. A sua relevância histórica não advém de complicações de alta relojoaria fina, mas sim do seu design paradigmático representativo dos anos 70, da sua fiabilidade inabalável e do testemunho vivo que presta à era dourada dos cronógrafos desportivos europeus.
HISTÓRIA
A história do Yema Meangraf Super está intrinsecamente ligada à ascensão da Yema como a principal força relojoeira da França durante as décadas de 1960 e 1970. Fundada em 1948 pelo relojoeiro diplomado Henry Louis Belmont na histórica cidade de Besançon – o coração da relojoaria francesa –, a Yema destacou-se desde o início por criar "tool watches" (relógios-ferramenta) de alta fiabilidade, com designs altamente específicos para diferentes profissionais, aventureiros e desportistas. Enquanto o modelo "Superman" servia a comunidade de mergulhadores e o "Yachtingraf" auxiliava os regatistas na contagem regressiva, a prolífica família com o sufixo "graf" expandiu-se agressivamente para o mundo do automobilismo com o célebre "Rallygraf" e o esteticamente singular "Meangraf".
O Meangraf original surgiu no final dos anos 1960 apresentando caixas redondas mais tradicionais. Contudo, a transição para a década de 1970 exigiu uma linguagem visual radicalmente nova, culminando no desenvolvimento do Meangraf Super. A década de 1970 foi profundamente marcada pelo estilo "Space Age", que valorizava geometrias não convencionais, volumetria acentuada e uma rutura deliberada com o classicismo sóbrio dos anos 1950. O Meangraf Super adotou uma caixa tonneau imponente, eliminando as asas estendidas para criar uma silhueta integrada e futurista. Para manter o relógio acessível ao público jovem e aos entusiastas de rali de fim de semana, a Yema optou pela utilização de caixas de metal base cromado, sempre combinadas com um fundo em aço inoxidável para garantir proteção contra o suor e a corrosão ao longo do uso diário. Esta decisão comercial astuta permitiu a alocação do orçamento onde o desempenho realmente importava: o calibre mecânico.
Para assegurar a precisão cronométrica sob exigências extremas, a Yema recorreu à formidável indústria suíça de ébauches, selecionando o calibre Valjoux 7734. Este movimento mecânico de corda manual, operando a uma frequência tradicional de 18.000 vibrações por hora (2,5 Hz) e alojando 17 rubis, era um verdadeiro cavalo de batalha da indústria relojoeira. Derivado da arquitetura do calibre Venus 188 – após a absorção da Venus pela Valjoux –, o 7734 utilizava um fiável sistema de cames em vez de uma roda de colunas (column wheel). Este mecanismo facilitava a produção em massa e a manutenção mecânica sem comprometer a durabilidade a longo prazo. A adição da janela de data às 6 horas foi o elemento que o diferenciou tecnicamente do seu predecessor direto, o Valjoux 7733, conferindo uma dimensão extra de utilidade diária ao utilizador. Simultaneamente, o sistema de proteção contra choques Incabloc assegurava que o escape mecânico sobreviveria ileso às intensas vibrações do desporto motorizado.
Hoje, os exemplares que sobrevivem em boas condições – com as suas volumosas caixas cromadas intactas, arestas não polidas e mostradores não degradados – são verdadeiras raridades. Eles atraem considerável atenção no mercado internacional de leilões vintage. A documentação destas peças em catálogos de leilão valida o seu estatuto não apenas como relógios precisos, mas como artefactos culturais autênticos da era "Space Age". O Meangraf Super funciona como uma cápsula do tempo, encapsulando a audácia do design industrial francês e a inegável solidez da engenharia mecânica suíça numa época magistral, imediatamente anterior à revolução e crise do quartzo.
CURIOSIDADES
1. A Yema foi coroada como a principal exportadora de relógios da França entre 1966 e 1968, chegando a exportar anualmente mais de 500.000 unidades para mais de 50 países em todo o mundo.
2. O célebre sufixo "graf" da Yema é amplamente reconhecido na comunidade horológica como uma das nomenclaturas mais consistentes da relojoaria vintage, agrupando instrumentos para o ar (Flygraf), mar (Yachtingraf) e terra (Rallygraf e Meangraf).
3. O calibre suíço Valjoux 7734 utilizado no Meangraf Super partilha a sua arquitetura mecânica base com o icónico movimento russo Poljot 3133. As máquinas-ferramenta para a sua produção foram vendidas pela Valjoux à União Soviética no final da década de 1970.
4. O formato de caixa aerodinâmico "tonneau" (sem asas finas e proeminentes) tinha uma função prática além da estética: reduzia significativamente o risco de o relógio ficar preso em engrenagens, mangas de fatos de corrida ou volantes durante manobras rápidas em competições.
5. O prestígio global dos cronógrafos desportivos da Yema sofreu um aumento monumental na mesma época quando a lenda do automobilismo Mario Andretti utilizou o seu próprio Yema Rallygraf durante a sua histórica vitória na corrida Indy 500 de 1969.
6. Devido à escolha do uso de latão ou metal base cromado para a construção da caixa (uma medida típica de redução de custos dos anos 1970 para relógios utilitários), os exemplares do Meangraf Super em condição "Mint" (imaculada) são extraordinariamente raros hoje em dia, pois o revestimento em cromo tendia a sofrer desgaste, abrasão e "brassing" (exposição do latão subjacente) ao longo das décadas.
7. O design rigoroso do mostrador bi-compax aloca inteligentemente os pequenos segundos de marcha contínua na subesfera das 9 horas, deixando a leitura crítica do cronógrafo (o contador de minutos) para a subesfera das 3 horas, permitindo consultas visuais ultrarrápidas pelo piloto.