HISTÓRIA
A gênese do Certina DS remonta a meados da década de 1950, um período em que a manufatura suíça Kurth Frères S.A. (fundada em Grenchen em 1888 pelos irmãos Adolf e Alfred Kurth) identificou uma fragilidade intrínseca na relojoaria mecânica: a dependência quase exclusiva dos sistemas antichoque no balanço (como o Incabloc). Embora os pivôs do eixo do balanço estivessem protegidos contra quebras em impactos menores, fortes choques transmitiam deformações por toda a carrura, descentralizando engrenagens, quebrando eixos de rodas e comprometendo a estanqueidade das coroas e cristais. Sob a liderança técnica dos engenheiros e relojoeiros da manufatura em Grenchen, iniciou-se um ambicioso programa de pesquisa física e elastomérica que durou vários anos, com o objetivo de conceber um relógio virtualmente indestrutível para uso sob as condições mais extremas do planeta.
Em 1959, a Certina patenteou e revelou formalmente ao mundo o conceito 'Double Security' (DS), materializado no modelo homônimo. O princípio técnico fundamental foi romper com o paradigma de fixar rigidamente o movimento à caixa por meio de aros rígidos de metal ou parafusos diretos de carrura. Em seu lugar, a equipe de engenharia concebeu uma suspensão cinética integral: o calibre 25-45 era envolto por um anel elástico de borracha sintética de alta densidade, atuando como um absorvedor de choque multidirecional dentro da robusta caixa de aço Staybrite. Adicionalmente, foi projetado um espaço milimétrico de deflexão livre entre o mostrador e o cristal acrílico hiperdimensionado, permitindo que a caixa flexionasse sob impacto brutal ou altíssima pressão hidrostática sem transferir tensões destrutivas ao coração mecânico do calibre.
A consagração internacional definitiva da tecnologia DS ocorreu em maio de 1960. A expedição suíça liderada pelo renomado alpinista Max Eiselin, incumbida de conquistar a primeira ascensão bem-sucedida do Dhaulagiri no Himalaia (8.167 metros de altitude), equipou todos os seus membros com relógios Certina DS originais. Os exemplares foram submetidos a flutuações térmicas extremas de até -40°C, quedas sobre rochas de gelo, vibrações severas e brutais quedas de pressão barométrica, operando com cronometria impecável e sem nenhuma falha mecânica durante meses de escalada. Esse feito heroico foi amplamente documentado pela imprensa científica e expedicionária global, consolidando a reputação da Certina como expoente em engenharia de confiabilidade instrumental.
O impacto na alta horologia foi monumental. O Certina DS não apenas estabeleceu novos parâmetros para relógios de expedição, aventura e uso profissional diário, mas também introduziu uma linguagem visual inconfundível. Para celebrar a couraça de resistência do modelo, a manufatura adotou o relevo da carapaça de tartaruga no verso da caixa — um dos logotipos e insígnias mais respeitados por colecionadores de vintage em todo o mundo. A tecnologia DS tornou-se a espinha dorsal identitária e técnica da Certina por mais de seis décadas, demonstrando que a alta sofisticação relojoeira também reside na capacidade da engenharia de materiais de criar sistemas de proteção mecânica absoluta.
CURIOSIDADES
• Testes de Impacto Científicos Extremos: Durante os testes de homologação pré-lançamento em 1959, os protótipos do Certina DS foram submetidos a quedas controladas de uma altura de 6 metros diretamente sobre pisos de concreto maciço, comparados a relógios convencionais da época cuja tolerância máxima girava em torno de 1,8 a 2,2 metros. O sistema DS absorveu a totalidade da energia cinética sem quebra dos eixos ou interrupção do funcionamento do oscilador.
• A Conquista do Dhaulagiri em 1960: O Certina DS foi o instrumento oficial da primeira expedição humana a atingir o cume do Dhaulagiri no Nepal (oitava montanha mais alta do mundo). Os alpinistas suíços não relataram nenhuma quebra mecânica ou perda de estanqueidade ao longo de toda a travessia himalaia, tornando o modelo um dos mais lendários relógios de montanhismo da história.
• O Mistério e Simbolismo da Tartaruga: A gravura da tartaruga no fundo rosqueado tornou-se um dos símbolos de manufatura mais reconhecidos do mundo. Nos primeiros lotes de produção de 1959 e 1960, a tartaruga era gravada de forma plana com traços finos, evoluindo posteriormente para um medalhão tridimensional escultural com relevo detalhado da carapaça de quelônio.
• Cristal Hesalite Reforçado com Espessura Dupla: Enquanto a espessura padrão para vidros acrílicos de relógios suíços em 1959 era de aproximadamente 1,0 mm a 1,2 mm, a Certina projetou para o DS um cristal de 2,0 mm de espessura nominal com perfil abaulado reforçado e aro de tensão interno, garantindo resistência à pressão submarina de 200 metros sem colapso estrutural.
• Presença em Leilões Internacionais: Exemplares de primeira geração de 1959 com mostradores originais em tom preto ou 'pie-pan' e ponteiros Dauphine com trítio preservado alcançam cotações crescentes em casas de leilões como Phillips e Antiquorum, sendo cobiçados pela sua importância seminal na história do design de relógios esportivos e instrumentais.