RESUMO
O Yema Super Rallygraf de 1967 representa um dos ápices do design de cronógrafos voltados ao automobilismo da vibrante década de 1960. Nascida em Besançon, França, a marca Yema consolidou a sua reputação internacional ao criar ferramentas de precisão extremamente robustas e visualmente distintas, destinadas a pilotos profissionais e entusiastas das corridas de automóveis. Este modelo específico é universalmente reverenciado por duas características centrais: a sua impressionante estética de painel de corrida, marcada pelos arrojados submostradores em formato de 'TV screen' (tela de televisão), e a presença oculta sob a sua caixa do lendário calibre mecânico Valjoux 72. O Valjoux 72 é um movimento de cronógrafo a corda manual governado por roda de colunas, universalmente aclamado na alta relojoaria por sua notável confiabilidade, suavidade de acionamento e arquitetura sofisticada. Destaca-se que este é o mesmo prestigiado motor mecânico que impulsionou os icônicos Rolex Daytona manuais do mesmo período. Alojado numa durável caixa de aço inoxidável de 39 milímetros de diâmetro, uma dimensão considerada audaciosa, generosa e de altíssima legibilidade para os padrões daquela época, o Super Rallygraf combinava impecável funcionalidade técnica com um estilo puramente vanguardista. Elementos cruciais, como a escala taquimétrica exterior, eram ferramentas analógicas essenciais para o cálculo rigoroso de velocidade média nas pistas. Hoje, este relógio é categorizado como um genuíno 'graal' entre os colecionadores globais de cronógrafos vintage franceses e de relógios temáticos de automobilismo. Sua escassez extrema no mercado de leilões, combinada com a conexão mecânica e histórica inegável aos cronógrafos suíços de elite, eleva o Yema Super Rallygraf de 1967 a um status horológico mítico, transcendendo as suas origens de instrumento utilitário esportivo para se converter em uma peça de imensurável valor histórico.
HISTÓRIA
A história fundamental do Yema Super Rallygraf remonta ao auge da era de ouro do automobilismo esportivo europeu e norte-americano, uma época em que a cronometria mecânica não era um mero luxo, mas uma necessidade absoluta para a sobrevivência e o triunfo nas pistas. Fundada no ano de 1948 por Henry Louis Belmont na cidade de Besançon, o tradicional coração pulsante da indústria relojoeira francesa, a Yema sempre teve como pilar central de sua filosofia produzir relógios-ferramenta de altíssima confiabilidade e apelo profissional. Durante a efervescente década de 1960, a direção da marca percebeu a crescente demanda técnica por cronógrafos precisos e resistentes no implacável mundo das corridas automobilísticas. Estes ambientes de alto risco exigiam medições exatas para cálculos de velocidade média, aferição de consumo de combustível e acompanhamento de tempos de volta com precisão fracionária. Lançada em 1966 e consolidada magistralmente com a robusta iteração Super Rallygraf de 1967, a linhagem Rallygraf foi desenhada desde o primeiro esboço para atender a essa demanda visceral. O que imediatamente separava o Super Rallygraf de seus numerosos contemporâneos suíços e franceses era o seu design de vanguarda e ousadia geométrica. O mostrador do modelo introduziu de forma pioneira submostradores distintos em forma de trapézio ou, como foi popularmente cunhado, 'TV screen' (tela de televisão). Estas sub-janelas atípicas foram inspiradas diretamente e de forma intencional no formato dos painéis de instrumentos dos carros esportivos e de rali daquela época, proporcionando um arranjo de extrema facilidade de leitura sob as fortes vibrações do volante. Esta identidade visual inconfundível e marcante tornou-se a assinatura vitalícia da linha Rallygraf. No entanto, o verdadeiro prestígio histórico e relojoeiro desta raríssima variante de 1967 repousa silenciosamente sob o seu capô de aço inoxidável: a adoção deliberada do calibre Valjoux 72. Naquela conjuntura histórica, a grande maioria dos cronógrafos comerciais da Yema utilizava calibres de arquitetura mais acessível e simples, fabricados pela própria Valjoux (como os robustos movimentos ativados por came da série 7730) ou por outras manufaturas como a Venus. A ambiciosa escolha de integrar o Valjoux 72 — um profundamente sofisticado movimento de cronógrafo operado por roda de colunas, dotado de três acumuladores e famoso mundialmente por sua suavidade tátil de acionamento e por sua extrema precisão a 18.000 vibrações por hora — elevou o Super Rallygraf a um patamar técnico de classe mundial. É fundamental ressaltar que este é exatamente o mesmo motor mecânico que a gigante Rolex selecionou para dar vida ao seu lendário Cosmograph Daytona nas míticas referências 6239, 6241 e 6263, e que a Heuer aplicou nos seus celebrados modelos Carrera e Autavia durante o mesmo período áureo. O uso do Valjoux 72 por uma marca de origem francesa demonstrava uma corajosa ambição corporativa de competir de igual para igual, não apenas na estética vanguardista, mas também na pureza e alta performance da engenharia mecânica. Ao longo dos anos 1960 e do início dos anos 1970, a linhagem Rallygraf ganhou notável notoriedade entre profissionais do asfalto, ainda que comercialmente ofuscada pelas imensas campanhas publicitárias das gigantes suíças. A história os validou quando o icônico piloto Mario Andretti escolheu usar um cronógrafo Yema Rallye durante as suas consagradas vitórias automobilísticas, consolidando a autenticidade da marca no rigoroso panteão do automobilismo. Infelizmente, a iminente Crise do Quartzo nos anos 1970 alterou de forma drástica e irremediável a trajetória industrial da Yema, forçando a brusca interrupção da produção destes custosos e complexos cronógrafos mecânicos. Como a fabricação específica da variante Super Rallygraf equipada com o calibre de roda de colunas Valjoux 72 durou apenas um efêmero período no crepúsculo da década de 1960, a taxa de sobrevivência destes exemplares nas décadas seguintes provou ser incrivelmente baixa. Hoje, o Yema Super Rallygraf Valjoux 72 de 1967 é considerado uma genuína anomalia histórica e um troféu monumentalmente reverenciado no saturado mercado de leilões internacionais. Ele corporifica uma peça que carrega consigo a mesma essência mecânica formidável do reverenciado Santo Graal dos relógios esportivos suíços (o Daytona de corda manual), mas apresenta uma roupagem de design inequivocamente francesa e profundamente inovadora. É o testemunho máximo da capacidade técnica da Yema, congelando um raro momento na história da horologia onde a paixão pelo asfalto, o estilo industrial e a excelência absoluta em cronometria operavam em perfeita e imperturbável sintonia.
CURIOSIDADES
- Coração da Realeza Suíça: O calibre Valjoux 72 presente neste relógio é estruturalmente idêntico ao motor que impulsionou o mitológico Rolex 'Paul Newman' Daytona, garantindo ao Yema um pedigree mecânico de primeiríssima linha.
- Estética Utilitária: O icônico design de mostradores 'TV Screen' não foi criado apenas para chamar a atenção; a geometria foi projetada ergonomicamente para replicar os medidores dos painéis de corrida dos anos 60, agilizando a leitura óptica sob o estresse extremo da pilotagem.
- Conexão Mario Andretti: Embora Andretti tenha popularizado a versão 'Rallye' (com dois submostradores e calibre diferente) ao usá-la em suas corridas épicas como a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis de 1969, essa associação consolidou toda a linha Rallygraf da Yema como autênticos 'racing chronographs'.
- Raridade Extrema em Leilões: Devido à curta janela de produção e aos custos elevados de aquisição do calibre Valjoux 72 na época, esta variante de 1967 foi fabricada em números irrisórios comparados aos modelos com calibres 7730, fazendo dela uma peça altamente escassa nos leilões contemporâneos.
- Frequência Horológica Clássica: Fiel à tradição antes do advento dos movimentos de alta frequência (como os 36.000 vph do El Primero de 1969), o Valjoux 72 operava a um rítmico e durável passo de 18.000 vibrações por hora (2.5 Hz), promovendo uma vida útil e longevidade mecânica inigualáveis.
- O Desafio de Besançon: O Super Rallygraf é um manifesto industrial da cidade de Besançon, demonstrando que a França possuía capacidade criativa e poder de montagem para desafiar abertamente a hegemonia da fronteira suíça no cume da cronometria esportiva mecânica.