RESUMO
O Aquastar Deepstar, introduzido na década de 1960, representa um marco singular na história da relojoaria subaquática profissional. A variante co-assinada pela Duward, datada de aproximadamente 1965, é um exemplo notável da estratégia da marca de utilizar distribuidores regionais de grande prestígio para penetrar em mercados com fortes restrições de importação, como a Espanha durante a ditadura de Franco. Este cronógrafo de mergulho icónico transcende a estética, tendo sido concebido originalmente por Frédéric Robert como um verdadeiro instrumento de sobrevivência. É mundialmente reconhecido pela introdução de um bisel duplo patenteado (Patente Suíça nº 333333) que permitia aos mergulhadores calcularem tempos de mergulhos sucessivos sem descompressão, com base nas tabelas da Marinha Francesa. Para além da sua funcionalidade ímpar, que o levou a ser adotado por Jacques-Yves Cousteau e pela tripulação do navio Calypso, o relógio ostenta um design assimétrico inconfundível. Destaca-se no mostrador o submostrador de minutos superdimensionado (frequentemente apelidado de 'Big Eye') às 3 horas, pintado de branco para garantir máxima legibilidade em águas turvas. Impulsionado pelo formidável calibre Valjoux 23 de corda manual com arquitetura de roda de colunas (column wheel), o Deepstar Duward materializa a interseção perfeita entre a fiabilidade da mecânica tradicional suíça e o espírito de exploração oceânica do século XX.
HISTÓRIA
A gênese do Aquastar Deepstar remonta ao início da década de 1960, um período de extraordinária efervescência na exploração subaquática e na popularização do mergulho autônomo (SCUBA). Fundada em Genebra em 1962 por Frédéric Robert, um mergulhador experiente, relojoeiro e marinheiro, a marca Aquastar destacou-se imediatamente por uma premissa radical: focar de forma exclusiva e irrevogável na produção de instrumentos de precisão para esportes aquáticos e exploração oceânica, abandonando deliberadamente a abordagem generalista das manufaturas contemporâneas. O modelo Deepstar, introduzido a meio da década, consolidou-se como a obra-prima técnica da marca, concebido não como um simples adorno de pulso, mas como um computador de mergulho mecânico analógico, vital para a sobrevivência em missões submarinas.
O diferencial fundamental do Deepstar reside no seu inovador bisel duplo patenteado. Em estrita colaboração com o Capitão Jacques-Yves Cousteau e tomando por base as rigorosas tabelas de mergulho da Marinha Francesa (GERS - Groupe d'Études et de Recherches Sous-marines), Robert desenhou um aro rotativo complexo. Este bisel permitia ao mergulhador não apenas cronometrar a imersão atual, mas calcular os tempos de segurança e os intervalos de superfície para mergulhos sucessivos sem necessidade de descompressão. A precisão e a utilidade deste sistema colocaram o Deepstar num patamar de vanguarda tecnológica, sendo logo adotado pelo Comandante Cousteau e por Albert Falco, tornando-se equipamento de eleição a bordo do icónico navio de pesquisa Calypso.
Para compreender a rara variante 'Duward', é imperativo analisar a economia e a complexa teia geopolítica europeia da época. Durante a ditadura de Francisco Franco, a Espanha mantinha uma política autárquica que impunha rigorosas restrições e tarifas proibitivas sobre a importação de bens de luxo estrangeiros, incluindo relógios suíços completos. Para contornar estas barreiras e aceder ao lucrativo mercado ibérico, a Aquastar desenvolveu uma sofisticada estratégia de parcerias com redes de distribuição consolidadas em diferentes países (modelo adotado também com a Lorenz na Itália e a JeanRichard nos EUA). A Duward, uma marca fundada em Barcelona em 1930 pela histórica família relojoeira Vendrell, dominava o mercado espanhol com uma vasta rede de distribuidores. Através de um acordo comercial inteligente, as peças do Aquastar eram importadas ou montadas sob as cotas da Duward e os mostradores eram co-assinados 'Duward Aquastar'. Esta chancela dupla atestava a legitimidade da peça num mercado fortemente fechado e alavancava a confiança do consumidor local na fiabilidade do instrumento.
Mecanicamente, o Deepstar Duward de 1965 atesta um rigor relojoeiro irretocável ao abrigar o reverenciado calibre Valjoux 23. Numa era em que muitos fabricantes começavam a transitar para cronógrafos atuados por cames (cam-actuated) de modo a reduzir custos de produção, o Deepstar manteve a sofisticada e duradoura arquitetura de roda de colunas. Operando a uma frequência estável e provada de 18.000 alternâncias por hora (2,5 Hz) e incorporando 17 rubis, o Valjoux 23 oferecia uma robustez exemplar contra os choques inevitáveis num ambiente marítimo, engajamento excecionalmente suave e manutenção facilitada.
Esteticamente, o relógio é uma verdadeira masterclass em funcionalismo tático, pautado pelo modelo de caixa 'Skin Diver' de 37,5 milímetros. O seu traço visual mais icônico – o submostrador de minutos superdimensionado e de fundo branco às 3 horas ('Big Eye') – foi idealizado por uma simples razão fisiológica: num ambiente subaquático com baixa luminosidade e distorção óptica, o tempo decorrido no cronógrafo era o dado de leitura mais crítico. Complementarmente, e em detrimento de um pequeno submostrador contínuo de segundos às 9 horas, a Aquastar optou por inserir um peculiar indicador em forma de diamante. A função deste elemento giratório não era medir frações precisas de tempo, mas fornecer um aviso ótico imediato de que o movimento mecânico estava a funcionar adequadamente, conferindo segurança mental ao mergulhador de que a sua contagem de tempo não havia parado por entrada de água ou falha de corda. Em suma, o Aquastar Deepstar Duward encapsula uma era romântica mas cientificamente rigorosa da exploração humana, combinando soluções de engenharia magistrais num artefacto de profunda importância histórica.
CURIOSIDADES
O Aquastar Deepstar ganhou notoriedade mundial ao ser usado pelo Capitão Jacques-Yves Cousteau em várias missões e documentários premiados a bordo do Calypso, solidificando o seu status como um verdadeiro 'tool watch' (relógio-ferramenta).
A designação 'Duward' no mostrador resultou de um acordo de licenciamento de distribuição com a família espanhola Vendrell, concebido primariamente para contornar os elevados impostos de importação espanhóis impostos sobre bens de luxo estrangeiros durante as décadas de 1960 e 1970.
O indicador de rotação localizado às 9 horas no mostrador não contém escala para marcação exata de segundos; a sua única finalidade prática e vital era confirmar de forma rápida ao mergulhador que o relógio não tinha parado e continuava a medir o tempo.
O complexo bisel duplo do Deepstar foi o primeiro da história a integrar os cálculos das tabelas da Marinha Francesa (GERS) para mergulhos consecutivos, permitindo gerir intervalos de superfície diretamente do pulso.
Apesar da sua aparência desportiva revolucionária, a peça baseia-se num movimento clássico da alta relojoaria, o Valjoux 23, mantendo a tradicional taxa de batimento de 18.000 vph e o desejado mecanismo de roda de colunas, tornando a assistência técnica fácil e durável.
O fundador da Aquastar, Frédéric Robert, aplicou com tanto sucesso a teoria de 'relógios como instrumentos' no Deepstar que, no final da década de 1960, acabou por transitar para a Omega, onde foi uma das mentes fundamentais por trás da evolução de mostradores e caixas na famosa linha Seamaster Ploprof e Flightmaster.