RESUMO
O Yema Navygraf Original, introduzido na viragem da década de 1970, representa um marco fundamental na história da relojoaria de mergulho e dos instrumentos subaquáticos europeus. Concebido sob a direção de Henry Louis Belmont em Besançon, o berço da relojoaria francesa, o Navygraf foi desenvolvido com um propósito estritamente utilitário para responder às exigências de mergulhadores profissionais e oceanógrafos da época. Distinguindo-se de imediato pela sua estética altamente funcional, o relógio tornou-se icónico pelos seus marcadores de horas em forma de 'ponto de exclamação' e pelos vibrantes ponteiros amarelos, um esquema cromático estudado para proporcionar um contraste ótimo e uma leitura instantânea nas zonas de baixa luminosidade subaquática. Equipado com um vidro de hesalite duplamente abobadado (double-domed), o modelo não só assegurava uma resistência mecânica formidável à pressão hidrostática — sendo certificado para 200 metros (20 ATM) —, mas também reduzia a distorção visual debaixo de água. Este modelo operou como um pilar na consolidação da Yema enquanto manufatura de 'tool watches' de precisão, emparelhando-se com o lendário Yema Superman. Contudo, enquanto o Superman se destacava pelo seu mecanismo patenteado de bloqueio de bisel, o Navygraf primava pela pureza e robustez minimalista do seu design. Atualmente, o Navygraf Original de 1970 é reverenciado por historiadores e colecionadores como um testemunho irrefutável do apogeu da relojoaria desportiva francesa pré-Crise do Quartzo.
HISTÓRIA
A história do Yema Navygraf é indissociável da ascensão meteórica da relojoaria desportiva de Besançon no período pós-guerra e do pioneirismo da marca no desenvolvimento de instrumentos marítimos. Fundada em 1948 por Henry Louis Belmont, um relojoeiro magistral diplomado com louvor pela Escola Nacional de Relojoaria de Besançon, a Yema estabeleceu-se rapidamente com a premissa de criar relógios mecânicos que aliassem robustez industrial a preços acessíveis. Na década de 1960, a manufatura já havia provado a sua capacidade inventiva com o lançamento do Yema Superman (1963), célebre pelo seu inovador bloqueio de bisel. No entanto, no dealbar da década de 1970, o advento generalizado do mergulho desportivo e profissional exigia instrumentos cada vez mais diversificados. Foi neste contexto que nasceu o Navygraf Original.
Concebido como um 'tool watch' na sua essência mais pura, o Navygraf foi intencionalmente desprovido do complexo sistema de bloqueio do Superman, favorecendo um design de bisel de fricção (ou catraca tradicional) altamente fiável e menos propenso à acumulação de sedimentos durante explorações em fundos marinhos lamacentos. A arquitetura visual do mostrador constituiu a inovação central do modelo. A decisão de aplicar marcadores de horas em forma de 'ponto de exclamação' (constituídos por um bastão luminescente principal e um ponto isolado de trítio na base) não foi um mero capricho estético. Este arranjo foi projetado para fornecer um eixo visual inconfundível, permitindo que o mergulhador identificasse instantaneamente a orientação correta do mostrador, mesmo na escuridão absoluta e em condições de desorientação sensorial.
Adicionalmente, os ponteiros amarelos foram selecionados baseando-se no comportamento do espectro de luz na coluna de água. À medida que a profundidade aumenta, as cores com comprimentos de onda mais longos (como os vermelhos) são absorvidas primeiro e tornam-se cinzentas ou pretas. O amarelo e o laranja brilhante mantêm o contraste contra mostradores escuros por mais tempo durante a descida, maximizando a utilidade operacional do instrumento.
No campo mecânico, o Navygraf da década de 1970 dependia da fiabilidade dos calibres France Ébauches (notoriamente o FE 3611 ou o FE 4611 de 17 rubis e 21.600 vph) e ocasionalmente de movimentos ETA, garantindo uma manutenção simplificada e uma precisão consistente. O modelo foi também dotado de um cristal de hesalite espesso e duplamente abobadado, desenhado para dispersar a pressão extrema dos 200 metros (20 ATM) enquanto servia de lente corretiva contra a refração subaquática.
Ao longo das décadas, o sucesso esmagador do Navygraf impulsionou a Yema para o título de principal exportadora de relógios de França durante a década de 1970. O modelo sofreu várias iterações, como o Navygraf II, e foi eventualmente relançado no século XXI com calibres de manufatura. Contudo, é o Navygraf Original de 1970, com a sua pátina de trítio, biseis em baquelite e estética idiossincrática, que detém o lugar de honra nos arquivos da relojoaria, cristalizando um momento em que a engenharia francesa desafiou a hegemonia suíça no domínio da exploração oceânica.
CURIOSIDADES
1. A designação técnica dos marcadores em formato de 'ponto de exclamação' (exclamation point dial) é, na verdade, uma nomenclatura consagrada retrospectivamente por colecionadores, baseada no arranjo singular dos blocos de trítio.
2. Durante os anos 1970, a Yema tornou-se a marca oficial da Federação Francesa de Estudos e Desportos Submarinos (FFESSM), o que significou que o Navygraf foi testado em condições reais por alguns dos mais exigentes instrutores de mergulho da Europa.
3. O cristal de hesalite 'double-domed' (curvatura dupla) não servia apenas para defletir a pressão estrutural, mas eliminava grande parte do 'efeito de espelho' sob certos ângulos subaquáticos, uma vantagem crítica sobre os vidros planos tradicionais.
4. Muitos mergulhadores de combate e sapadores submarinos preferiam o Navygraf ao icónico Superman, argumentando que a ausência do bloqueio de coroa do Superman impedia a retenção acidental de areia no mecanismo mecânico do bisel.
5. O uso intenso do amarelo fluorescente nos ponteiros foi o resultado direto da aplicação da física ótica subaquática, contornando a absorção rápida do espectro vermelho que ocorre nos primeiros 5 a 10 metros de profundidade.
6. As primeiras inserções de bisel do Navygraf eram feitas em baquelite, um polímero antigo que era belo e permitia luminescência integrada, mas que era notoriamente frágil e propenso a rachar; hoje, encontrar um Navygraf dos anos 70 com o seu bisel de baquelite intacto é considerado o 'santo graal' para os aficionados da marca.
7. A popularidade massiva deste relógio foi um fator chave para a Yema alcançar o marco histórico de exportar mais de um milhão de relógios por ano na década de 1970, dominando o segmento de 'tool watches' acessíveis e de qualidade militar na Europa.